sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Numa noite de quarto crescente, sexta-feira, num ônibus de periferia, uma estranha faz uma gentileza: um pacote de jujubas e um sorriso, trocados depois de umas poucas palavras. Sei mais ou menos pra onde ela foi, ela sabe mais ou menos onde fiquei. Quê mais? Mais nada. Ou tanto, que num sei dizer. Apenas sinto.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

... quem inventou fui eu fiz de você o sol da noite primordial ... um só sempre é demais pra seres como nós sujeitos a jogar as fichas todas de uma vez ... não quero ter que optar quero poder partir quero poder ficar ...
[Antônio Cícero]



Acostumei tanto ao sumir-se que na última me descobri gostando disso. Ainda mais se ao aparecer vem revirar o que tomava assento. Sinto muito - tanto! - mas, que fazer? Aqui, lá, em qualquer lugar: a questão é o que vai dentro... Se pudesse, faria muito diferente, pois desagrada o fatalismo de pensar (farejando) que vai retornar tantas vezes quantas jamais saberemos. Jamais saberemos. Outros muito mais sabidos não sabem. E ainda há estes, os outros... Teimosos inocentes, insistindo em chegar e estar, não notando (ou por notar?) o olho do furacão. Que fazer? Cansada, me abandono, azul, à maré.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Há quem diga que envelhecer é como voltar a ser criança. Aí eu tenho de me render ao riso moleque que acompanha a resposta rápida do homem velho à minha frente, cabeça baixa, olhar cansado, cabelos grisalhos, garfo na mão:

- Painho, as formigas vão dominar o mundo!

Pêi-buf:

- É dessa feita que o mundo melhora!

Duas horas das nossas vidas, ele todo enrolado para falar o que pensa, rindo amarelo por vezes, sem querer concordar, querendo concordância e eu vendo nos olhos dela a angústia tão difícil de carregar. Poderia pôr ambos no colo, acalantar os medos e sossegar as ansiedades. Mas não é preciso. Os olhos ainda brilham ao falar em sonhos e projetos. Pessimista na percepção, otimista na ação. Sigamos. "É preciso estar atento e forte". Sigamos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Eu vi o sorriso dele dançar
entre um suave olhar, que há tempos não via.
Desde então, seu abraço tomou gosto,
algo assim como jambo ou jasmim,
pêra ou pudim,
amora ou alecrim.

E então, entre cochichos e encomendas,
brincamos de curtir novidade aos pares,
nessa entrega ímpar de novo a três.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cacheou a foto, deu voltas a vida, deu voltas no mundo.
deu a cara a tapa, mostra sutil o rosto, sente novos gostos.

Sorriu o prazer da entrega, ao risco não se nega,
se pega suave
carregando possibilidades
leves que nem bola de sabão.

Enternecida, te estendo a mão, seguro com força,
seguindo junto toda a beleza
desse seu novo estar no mundo...

domingo, 5 de outubro de 2008

palavras precisas,
preciosos sons e silêncios,
amores intensos.

alguns rabiscos, café, frutas (limão!), gengibre, mel.

o quê mais? hum, vejamos... ah, sim!
cheiro de chuva, tons de azul e fogo.
para transformar.

[impossível por fora, chovendo por dentro|come on, baby, light my fire|perto do fogo, como na idade média|help me if you can|e dizer assim, o amor é azulzinho]

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

as asas de um pássaro quando começa a alçar vôo. a barra da saia esvoaçante de uma mulher. a contração de susto de um polvo. a flecha firme na mão de um arqueiro.

vi todas essas coisas e um pouco mais nas mãos de um maestro, ontem. fiquei pensando o quão precioso é reger uma orquestra, pois se rege não apenas os músicos, mas também os sentimentos todos que a música é capaz de despertar nas pessoas. por aquelas duas horas, aquele homem teve a minha vida nas mãos. a cada movimento, uma orientação, um pedido, uma indicação, um afeto, uma emoção, que me faziam sentir viva de um modo muito intenso, bonito, vibrante.

sentada ali, entregue àqueles sons sublimes, tive paz, saudades, encanto, disposição, desejo, sonho. fui, definitivamente, feliz como há muito não me sentia.