segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ontem eu te encontrei de novo.

Várias vezes.

Quando calcei os tênis iguais aos seus. Quando o livro recém ganho me fez ter vontade de escrever. Quando esbarrei no moço de olhar lânguido e contraí meu assoalho pélvico, involuntariamente. Quando acertei todas as marchas na volta pra casa. As pernas doloridas, comecei a hidro mas meu corpo ainda se sente sedentário. E o pior, recesso taí.

Talvez eu vá na academia, pedir uma série pra pessoas na meia idade. Às vezes dá vontade de ter de novo o corpo naquele formato dos primeiros anos do século XXI. Fantasio que assim eu seria mais do seu interesse. Aí me lembro que nada disso faz muito sentido.


O que eu quero de fato é conseguir dançar como se houvesse um amanhã sem dor. E conversar de novo com alguém como conversávamos antes de você preferir esquecer que me deseja.

[expurgando paixão - tomo I]

sábado, 11 de junho de 2016

de tanto ferver saudades, transbordou

14jul12

sábado, 4 de junho de 2016

Na seca do cerrado, uma menina achou de nascer de peito aberto. A medicina veio com suas explicações fisiológicas e seus recursos, pautados nas informações sobre esse monte de vazio entre átomos de que somos feitos. Nas dores rasas de meu peito fechado, em meio ao descomunal calor do trópico úmido, ressoou o incrível poder da vida de ser em condições que escapam ao nosso entendimento.

E ela foi.

E será, na minha memória, sempre que alguém quiser fechar o amor em um formato único, exato. Quando ele é livre para caber onde bem quiser. Inclusive na dor de uma saudade sem fim.

[por gabriela. gratidão, em 19mai14]

quarta-feira, 1 de junho de 2016

sonhei contigo, sendo você.
bem você.
inclusive no que pra mim
ainda é novidade e estranheza:
essa pressa que escapa
no olhar que foge

esquecer quando foi,
um jeito de dizer adeus

sexta-feira, 27 de maio de 2016

era uma notícia sobre nus. na verdade, um informe do Catarse de projetos sobre o tema. três, pareceram bem bacanas, um só com homens. lembrei você.

em outros tempos, o clique iria certeiro em encaminhar a mensagem, seguido de um aviso via WhatsApp. muito provavelmente dispararia uma conversa sobre o tema. isso de a Internet abrir espaço pro nu, desde as coisas escrotas que rolam na deep web, tipo necrofilia, até esses lances permeados por reflexão crítica e compromisso estético.

mas aí me vi nua na porta do seu banheiro, escova de dente na mão, inocente de que eu seria capaz de te fazer mal por uns beijos. pior, que você seria incapaz de me negar uns beijos. tanto que eu me dei, tão pouco que você se apropriou.

nem abri os links, apaguei a mensagem.
isso não é mais seu.
assim como eu.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Artífice em carpintaria

Durante uns bons anos, era isso o que preenchia o campo 'cargo/função' do contracheque de meu pai. Ele, que trabalhara com tantas coisas na vida, tinha a carpintaria como ofício e por ele fora reconhecido como alguém importante para integrar o Grupo de Trabalho de Brasília.

Na Capital em construção, os caminhões chegavam cheios de móveis de madeira, que deles desciam com as mais diversas avarias. Um dos colegas com quem trabalhava o homem mais forte do que o físico denunciava o indicou como alguém bom para a tarefa de descarregar os caminhões e fazer os consertos que a carga precisava: O nome é difícil, melhor chamar de Pará, foi de onde veio o caboclo branco.

E então a caixa de ferramentas compunha a decoração do apartamento de 58m² e dos meus sonhos de criança. Quando muito, ele me deixava brincar com os lápis vermelhos de ponta grossa, com os quais marcava na madeira o lugar por onde passaria o serrote. Depois vinha a plaina, deixando a peça lisa e o chão cacheado. Em seguida, a lixa d'água e por fim o verniz. Mas bom mesmo era lustrar com cera de carnaúba, um carinho pra madeira, raro porque caro.

Nesse e noutros serviços pesados, as mãos de meu pai se conformaram grossas. A espessura da pele, dos dedos, das unhas. Tudo bruto. Uma força absurda, que me impressionou até o último afago, sem jamais me colocar medo. Naquelas mãos de espartano cabia um universo de delicadeza, cultivando flores e ervas, temperando peixes, extraindo sumos, alinhando meus cabelos, consolando minhas dores.

Tenho muitas faltas na minha vida.
Hoje, a mais aguda é o conforto da mão de carpinteiro de meu pai.

domingo, 4 de janeiro de 2015

vestir a roupa, descobrir bolsos, sorrir molecagens [clari.ando I]
céus de chumbo rasgados de eletricidade, e elas garbosas, divas vegetais [sibipirunas - 21dez14]
Nos desconheço em muitas coisas. Tantas, que às vezes me pergunto se ainda é possível falar em 'nós'. Se sim, minha hipótese é de que nos acompanha firme o lirismo. Esse lirismo de cuidar de bicho, se encantar de planta, rir de criança. [3ª pessoa do plural]