Quanto sorvete pode caber dentro de uma mulher?
Tanto quanto ela precise para aproveitar a oportunidade.
Quantas palavras podem ser trocadas entre duas mulheres?
Tantas quantas elas precisem para aproveitar a oportunidade, de tal modo que inúmeras conversas possam ser começadas e paradas e continuadas e, enfim...
Quanto comum-de-dois podem ser as histórias amorosas de duas mulheres?
Tanto quanto seja necessário para que elas se sintam menos sós diante dessas histórias e seus efeitos.
Quantos homens podem habitar os corações de duas mulheres?
Tantos quantos ali cheguem, conquistem, invadam, remexam, encantem, revirem, incomodem, e, enfim...
Graças ao esquema de cotas, basta sacudir um pouquinho e abre-se o tanto das sobremesas. Se não estivéssemos na América Latina, com sua realidade fantástica, haveria quem se horrorizasse com a capacidade daquelas mulheres de consumir sorvetes. E trocar palavras, experimentar semelhanças e sobreviverem ao atravessamento de certos homens.
Mas, aqui, elas são apenas duas mulheres.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Entre tantas coisas inimagináveis, senti frio em Mossoró.
Vento, muito vento.
Tenho três testemunhas de que um vira-lata robusto andou cadenciadamente por mais de dez metros na madrugada, dando uma volta em torno do próprio eixo, em sentido horário, a cada quatro passos. Alucinação coletiva? Que seja. Melhor do que loucura bem acompanhada só mesmo um cachorro performático bailando na madrugada...
Vento, muito vento.
Tenho três testemunhas de que um vira-lata robusto andou cadenciadamente por mais de dez metros na madrugada, dando uma volta em torno do próprio eixo, em sentido horário, a cada quatro passos. Alucinação coletiva? Que seja. Melhor do que loucura bem acompanhada só mesmo um cachorro performático bailando na madrugada...
Quem diria que um cigarro fumado ansiosamente sob uma garoa fina em começo de madrugada poderia pôr fim a dias de garganta inflamada? Somente quem entendesse que pode-se queimar mais num cigarro do que fumo e papel. E que garganta inflamada pode ter tudo a ver com o mais que se pode queimar num cigarro.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Licença-prêmio para um coração funcionário público
Não fora aprovado em concurso, mas tinha plano de carreira, estabilidade, remuneração fixa, gratificação por funções extras, cartão de ponto, fim de ano com confraternização sem laços fraternos, lista de amigo secreto e, se brincasse, até I will survive no fim da festa. Resolvi, então, dar-lhe uma licença-prêmio. Afinal, quase trinta anos de casa... sem falar que os últimos cinco haviam sido profundamente atribulados. Mas a idade pesa, memória e atenção uma bosta, e sempre fui ruim de contas, nem notei que já haviam passado seis meses. Daí que ele voltou ao trabalho, revigorado e cheio de disposição, com gosto e gás, como se diz. Mas num acompanho seu pique, ando cansada. Janis Joplin e Cazuza confortam, bom ter almas vagando num limbo quase imbecil como o meu. Mas eu canto mal pra caralho, não toco nenhum instrumento nem tenho genialidade poética. Durmo o cansaço de quem tem um coração funcionário público. Um velho e comprometido funcionário público que, se destituído da função, chega a perder a noção de si, preferindo um infarto à aposentadoria. Nada pior do que hábitos arraigados. Ainda mais quando envolve muito prazer...
[12nov07]
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Algumas atualizações:
- Quase trinta mesmo. U-hu.
- Fiona Apple conforta muitíssimo bem, também.
- Descobri que canto menos mal do que pensava.
- Estou aprendendo a tocar um instrumento. Lânguido como convém.
- Nem há tanto prazer assim...
- Mais de um ano depois: que merda, hein, essa mesmice?
[12nov07]
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Algumas atualizações:
- Quase trinta mesmo. U-hu.
- Fiona Apple conforta muitíssimo bem, também.
- Descobri que canto menos mal do que pensava.
- Estou aprendendo a tocar um instrumento. Lânguido como convém.
- Nem há tanto prazer assim...
- Mais de um ano depois: que merda, hein, essa mesmice?
As ilusões perdidas
Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí, esse ar entre aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês já não repararam que nenhum deles fuma sorrindo?
[Mario Quintana, Da preguiça como método de trabalho]
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Sim, eu gostaria de cigarrilhas.
À beira-mar, à noite, usando casaco e calçando All Star, fones no ouvido, Fiona Apple cantando Paper bag e a fumaça agravando o embaçado da maresia nos meus óculos. Na impossibilidade, fica justificada a falta do sorriso.
Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí, esse ar entre aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês já não repararam que nenhum deles fuma sorrindo?
[Mario Quintana, Da preguiça como método de trabalho]
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Sim, eu gostaria de cigarrilhas.
À beira-mar, à noite, usando casaco e calçando All Star, fones no ouvido, Fiona Apple cantando Paper bag e a fumaça agravando o embaçado da maresia nos meus óculos. Na impossibilidade, fica justificada a falta do sorriso.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Fiz contas. Em onze dias, serão cinco meses.
De volta, ao pé do ouvido, num murmúrio: eu também. Um pouco mais leve, eu teria feito a pilhéria (adorei ela resgatar essa palavra)
- Que bom, é importante o amor próprio.
Mas isso me remete a mim mesma e aí as coisas tomariam ares mais densos. Desde então, tento me acostumar.
Às vezes consigo. Pra ajudar, criei uma fantasia baseada em fatos reais.
- Você, se esconder (risos)? Faz tempo que ela me disse que não posso passar despercebida.
Mas juro que foi isso que eu quis. Não consegui.
Alguma hora, segura à frente da tela plana que não reage ao meu baixar de olhos, vou perguntar o porquê. Dessa vez importa, pois era alguém totalmente livre de mim.
Era.
Já entreguei um monte. Discordamos do que seja amor e romantismo. Queremos o que não depende de nós ter. Temos a música, a timidez e muitos cachos. O que mais, é devir.
Antes disso, quererei saber o porquê. O quê. Talvez pergunte também sobre intenções, já que habita aqui alguém a quem apraz despertar desejos mundanos em quem lhe faz essa sutil gentileza. Visgos de possibilidade de convergência, mesmo que já abandonadas. Sim, já abandonadas. Boas fantasias são as carnavalescas.
Para o cotidiano, prefiro o realismo sobrenatural em letras impressas. Na cama, seis diferentes homens me provêm. Degustando-os, penso que poderiam escrever de nós, caso já não o tivessem feito por si mesmos. Assim, aguardo a profecia que lho anunciei: vai passar.
De volta, ao pé do ouvido, num murmúrio: eu também. Um pouco mais leve, eu teria feito a pilhéria (adorei ela resgatar essa palavra)
- Que bom, é importante o amor próprio.
Mas isso me remete a mim mesma e aí as coisas tomariam ares mais densos. Desde então, tento me acostumar.
Às vezes consigo. Pra ajudar, criei uma fantasia baseada em fatos reais.
- Você, se esconder (risos)? Faz tempo que ela me disse que não posso passar despercebida.
Mas juro que foi isso que eu quis. Não consegui.
Alguma hora, segura à frente da tela plana que não reage ao meu baixar de olhos, vou perguntar o porquê. Dessa vez importa, pois era alguém totalmente livre de mim.
Era.
Já entreguei um monte. Discordamos do que seja amor e romantismo. Queremos o que não depende de nós ter. Temos a música, a timidez e muitos cachos. O que mais, é devir.
Antes disso, quererei saber o porquê. O quê. Talvez pergunte também sobre intenções, já que habita aqui alguém a quem apraz despertar desejos mundanos em quem lhe faz essa sutil gentileza. Visgos de possibilidade de convergência, mesmo que já abandonadas. Sim, já abandonadas. Boas fantasias são as carnavalescas.
Para o cotidiano, prefiro o realismo sobrenatural em letras impressas. Na cama, seis diferentes homens me provêm. Degustando-os, penso que poderiam escrever de nós, caso já não o tivessem feito por si mesmos. Assim, aguardo a profecia que lho anunciei: vai passar.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

em 1920, nascia a Clarice Lispector.
em 1948, A Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
em 1972, nascia a Cássia Eller.
em 1983, no Peru, Cuzco e o santuário inca de Machu Pichu foram declarados bens culturais da humanidade pela Unesco.
em 1996, na África do Sul, Nelson Mandela assinou uma nova Constituição e pôs fim ao regime racista do Apartheid.
em 1998, na Espanha, o juiz Baltasar Garzón processou o general Augusto Pinochet pelos delitos de genocídio, terrorismo e torturas no Chile, ratificando a prisão provisional incondicional do ditador.
tudo isso no mesmo 10 de dezembro em que nasci, há 29 anos.
é, não é uma data qualquer.
gracias a la vida, que me ha dado tanto...
domingo, 7 de dezembro de 2008
De novo, foi ela quem deixou tudo claro.
Límpido, como a água na beira da lagoa.
Talvez seja comprometimento com as gerações futuras.
Afinal, eles precisarão tanto de água como de amor.
x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
Alguns nem viram,
outros não quiseram,
outros não puderam.
Mas já estava, o amor já estava,
posto que ele não tem pressa,
nem graves restrições.
Assim, ele pode esperar,
manso,
por quem que possa vivê-lo,
pleno.
Já,
quando nos seria bom,
ou além,
quando será bom a quem for.
Límpido, como a água na beira da lagoa.
Talvez seja comprometimento com as gerações futuras.
Afinal, eles precisarão tanto de água como de amor.
x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
Alguns nem viram,
outros não quiseram,
outros não puderam.
Mas já estava, o amor já estava,
posto que ele não tem pressa,
nem graves restrições.
Assim, ele pode esperar,
manso,
por quem que possa vivê-lo,
pleno.
Já,
quando nos seria bom,
ou além,
quando será bom a quem for.
sábado, 6 de dezembro de 2008
Eu nem tinha notado.
Para mim, era só a saudade de uma tranquilidade qualquer, de dias serenos porque sim.
Só quando se falou em companhia (de novo, ê nóis: /\) foi que fez sentido.
Eis, então, a questão:
Ressoa em mim
O que nem sentes, pois apenas sois.
Entre sons, descubro o sentido que faz,
na contramão do pensado,
nós dois convergindo.
Ah, se sesse!
Para mim, era só a saudade de uma tranquilidade qualquer, de dias serenos porque sim.
Só quando se falou em companhia (de novo, ê nóis: /\) foi que fez sentido.
Eis, então, a questão:
Ressoa em mim
O que nem sentes, pois apenas sois.
Entre sons, descubro o sentido que faz,
na contramão do pensado,
nós dois convergindo.
Ah, se sesse!
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Eu gosto de chá de gengibre e estampa de bolinhas. Sou tia há quase 25 anos e ainda não completei 30. Tenho mania de organização – adoro fazer listas – e fico tão bem na bagunça que a procuro. Sonho com o dia em que farei meus próprios vestidos e tocarei um instrumento de cordas, preferencialmente um violino ou um contrabaixo. Depois dos 20 anos mudei meu suco favorito – salve o cajá!, cortei meu cabelo sozinha – libertação!, aprendi a cuidar de plantas e a apreciar cachaças, desenhei minhas tatuagens e vaguei sozinha pelas ruas de São Paulo.
Sinto saudades do que ainda não vivi, gostaria de lembrar de mais coisas da minha infância e me desestabilizo pensando no futuro. Quero ir à Irlanda e à Espanha, ao Chile e à África. Não me acostumo com o sol se pondo pouco depois das 17h aqui em Natal, mas gosto dele nascendo pouco depois das 4h. Não sei guardar dinheiro, tenho medo de ter câncer, de ficar cega e de baratas. Deveria ter sido dançarina, mas findei psicóloga, coisa que tento compensar me devotando à pesquisa. Teria sido uma excelente ginasta ou artista de circo, ainda pretendo dançar tango e fazer acrobacias em tecido. Me entendo bem com panelas, papéis e miudezas. Sou boa em composição de cores, em lembrar de letras de músicas e elaborar auto-enganos.
Converso bem com estranhos e nem tanto com conhecidos – intimidade às vezes dispensa palavras, tanto quanto assusta. Pretendo voltar, mas não sei se quero ir. Gostaria de voar, não sei nadar nem andar de bicicleta. Gostaria de ter um filho atleta, um elefante e um carro antigo. Tenho nome pra um cachorro futuro, tiro as teias mas deixo as aranhas (prevenção à dengue) e viro bicho de vez em quando (tormentas ao sabor do ciclo lunar). Me queixo repetitivamente das mesmas tolices, me desmancho por um carinho ou um botão de flor, vivo cheia de mimos e dúvidas, mas algo pra mim é certo: vivo. Tenho um amor de perdição e vários de salvação, projetos mirabolantes e uma vontade imensa de rir.
[29jun08]
Sinto saudades do que ainda não vivi, gostaria de lembrar de mais coisas da minha infância e me desestabilizo pensando no futuro. Quero ir à Irlanda e à Espanha, ao Chile e à África. Não me acostumo com o sol se pondo pouco depois das 17h aqui em Natal, mas gosto dele nascendo pouco depois das 4h. Não sei guardar dinheiro, tenho medo de ter câncer, de ficar cega e de baratas. Deveria ter sido dançarina, mas findei psicóloga, coisa que tento compensar me devotando à pesquisa. Teria sido uma excelente ginasta ou artista de circo, ainda pretendo dançar tango e fazer acrobacias em tecido. Me entendo bem com panelas, papéis e miudezas. Sou boa em composição de cores, em lembrar de letras de músicas e elaborar auto-enganos.
Converso bem com estranhos e nem tanto com conhecidos – intimidade às vezes dispensa palavras, tanto quanto assusta. Pretendo voltar, mas não sei se quero ir. Gostaria de voar, não sei nadar nem andar de bicicleta. Gostaria de ter um filho atleta, um elefante e um carro antigo. Tenho nome pra um cachorro futuro, tiro as teias mas deixo as aranhas (prevenção à dengue) e viro bicho de vez em quando (tormentas ao sabor do ciclo lunar). Me queixo repetitivamente das mesmas tolices, me desmancho por um carinho ou um botão de flor, vivo cheia de mimos e dúvidas, mas algo pra mim é certo: vivo. Tenho um amor de perdição e vários de salvação, projetos mirabolantes e uma vontade imensa de rir.
[29jun08]
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