quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

No calor do impulso, não havia espaço para a dúvida, era pra ser uma interrogação. Mas, por obra de mavioso acaso, eis que foi um ponto.
Ao vê-lo, senti a deixa.

Há muito, o esforço é de me pôr limites. Forte, resiliente, ousada? Sim. Mas nem por isso é preciso suportar. Algo em mim diz: basta. Aí, ela me mostra a música e eu concluo - esse ainda não é o tempo da delicadeza. Então, assumo a possibilidade da dúvida e me concedo a negativa.

Por mim, por ti, pelo amor,
sinto que a hora é de sustentar o não.
De deixar para depois, para outro momento, de expôr-me ao risco do arrependimento, de privar-te do desprazer do encontro com o que de buliçoso tens apenas por existir.

O prazer sempre foi enormemente intenso, só que já não supre, não compensa, tão fulgás... Deseje comigo que eu consiga e entrega também ao acaso.
Sente o amor que eu te mando no vento.
Se cuida.
Voa.

Revolta

Alma que sofres pavorosamente
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sê contente
Antes que o horror da solidão te invada

Deixa que a vida te possua ardente
Ó alma supremamente desgraçada.
Abandona, águia, a inóspita morada
Vem rastejar no chão como a serpente.

De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.



[Vinicius de Moraes]

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A acrobata

Luz Marina Acosta era menininha quando descobriu o circo Firuliche.
O circo Firuliche emergiu certa noite, mágico barco de luzes, das profundidades do Lago da Nicarágua. Eram clarins guerreiros as cornetas de papelão dos palhaços e bandeiras altas os farrapos que ondeavam anunciando a maior festa do mundo. A lona estava toda cheia de remendos, e também os leões, aposentados leões; mas a lona era um castelo e os leões, os reis da selva. E uma senhora rechonchuda, brilhante de lantejoulas, era a rainha dos céus, balançando nos trapézios a um metro do chão.
Então, Luz Marina decidiu tornar-se acrobata. E saltou de verdade, lá do alto, e em sua primeira acrobacia, aos seis anos de idade, quebrou as costelas.
E assim foi, depois, a vida. Na guerra, longa guerra contra a ditadura de Somoza, e nos amores: sempre voando, sempre quebrando as costelas.
Porque quem entra no circo Firuliche não sai jamais.



[Eduardo Galeano, em Mujeres]

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Meu limite?
A descobrir.
Minha vontade?
A rever.
Meu momento?
A administrar.
Meu tempo?
É quando, disse o poetinha.

E aí, quase desmanchando, respiro fundo e guardo as lágrimas. Ok. Entendido. Bora lá...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Na noite suada sem vento
em ti derreto,
passeando dedos entre
cabelos,
pernas
e beijos.

Olhar direto,
sorriso íntimo
e o encaixe intenso
resume o encontro:

molecagem na horizontal.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Antes fosse uma bicicleta ou uma jamanta.
Mas o que me atropelou foi o inesperado.
Tem muito mais verde nas conversas salvas. Nelas, quem fala muito sou eu. Relendo-as, (re)encontro nas tuas poucas palavras precisos toques em mim, mais ou menos assim, entre as juntas dos dedos.
Ali, registradas, elas continuam me cutucando.

Sinto falta de olhar nos olhos.
E de te ouvir, de novo vendo as pernas tomarem um certo sossego.
Elas merecem. Mais ou menos assim como eu mereci te descobrir de verdade (se é que isso realmente aconteceu).

Me causa estranheza essa forma de contato. E, diante dos porvires, ela será a única possível. Lamento.
Juro como merecíamos mais.
Vaidade: juro como queria mais.
Mais uma dose do melhor veneno antimonotonia...
Textos, textos, textos.
Me trazendo o quê mesmo que me agrada no teatro, o que falta na música, o que não ficou óbvio no poeta, o que não sei de um monte de coisa, o que é importante em um monte de coisa que já sei, mas quase esqueci.

As letras aparecendo na tela me remetem ao filme, que me remete à realidade, que me remete à fantasia.

Falta um mês pro carnaval. Ainda não é tempo das fantasias que compensam. Então, o que fazer com essas que insistem em profanar a rotina?

domingo, 18 de janeiro de 2009

Domingos

Num, fim de luz de fim de tarde, e a mesma praça se mostra outra. Me encontro outra, ao sentir outra (leve) saudade.

Noutro, luz branca natural de lua, seguida de luz amarela artificial de ousadia, seguida de luz natural de sol, começando o dia. Quem diria...

Nesse, luz de meio-dia, aquecendo palavras de entrega inteira, dando outro tom à pele que, mais tarde, vê a luz de fim de tarde, em cores outras. Me sinto outra, ao encontrar a mesma (densa) saudade.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Pelo sorriso exclusivo, à meia-luz.
Pelo que de bicho requer respeito.
Pelo compromisso que assumi comigo.
Pelo lugar outro que assumiu.
Pelo tanto que quero mesmo isso.
Pela liberdade de poder.
Pelo bem que faz.
Pelo caos que preciso.
Pela musicalidade do sussuro.
Pelo apreço à lua, à rua, à madrugada.
Pelo que surpreende.
Pelo que há de lícito em desejar.
Pelo valor da entrega.
Pela confiança.
Pelo apreço em saber par.
Pelo carinho.

Acima de tudo, por ter sido.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Texto de Sagitário

Apaixonado pela ninfa Filira, Saturno ia visitá-la todas as noites sob a forma de um centauro.
Mais tarde, quando Filira deu à luz um ser metade homem e metade animal, ela ficou tão horrorizada que implorou aos deuses que a cegassem, que a fizessem louca para que ela nunca visse aquele horrendo ser que havia gerado.
E Filira morreu sem saber que havia dado à luz o centauro Quiron, a mais sábia de todas as criaturas da floresta.
Um dia, por engano, Hércules acertou em Quiron uma de suas flechas embebidas no sangue venenoso da hidra de Lerna. Quiron não podia morrer, porque era filho de um deus. Mas as dores que o torturava eram tantas, eram tão fortes, que a mulher que amava Quiron implorou aos deuses que o libertassem daquela imensa agonia.
E os deuses concederam. E Quiron foi vitrificado sem dor e visível pra sempre, na bela constelação de Sagitário.






Oswaldo Montenegro
Muitos giros.
Meus, dos ventos, de minhas saias e idéias.
Onde páro?
Num suspiro pelo olhar de não sei quem...