O tamanho do caixão dava a dimensão do quanto a adolescente ainda tinha mais de menina que de moça. A madeira barata estava fosca como os olhos de cotia do meu primo, miúdos, redondos e pretos. Não pude mais que lhe apertar a mão e dizer eu lamento.
Depois, sozinha em meio aos estranhos no ônibus, chorei a tristeza de saber que, como ela, muitas outras são violentamente retiradas da vida sem a chance de conhecer dela as belezas e alegrias que valem a pena.
Que o tempo nos conforte...
[À mocinha, meu lamento]
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
A teimosia não o deixa aceitar colocar a valise sobre a cadeira, de modo que ela permanece sobre o chão enquanto ele a arruma. Para isso, dobra a coluna exatamente como os ortopedistas dizem que ninguém deve fazer. Quando ela cansa, ele dobra os joelhos sentando-se sobre uma das pernas, evidenciando o poder da genética: vi vários de nossa terceira geração fazerem igual.
Já que não pode simplesmente dispensar as roupas, escolhe entre as mais velhas, amaciadas pelo uso muito. Se fosse anos antes, vendo-nos aprontar uma bagagem daquele modo, nos daria uma bronca, tamanha a desorganização. Mas agora ele pode dar-se a esses e outros direitos, como pentear os parcos cabelos com escovas de lavar roupa, passar o dia inteiro com a mesma cueca e, muito sutil e manhosamente, pedir que lhe sejam tirados os cravinhos das costas.
Vendo as curvas ganhas nos últimos anos, as quais ainda me causam estranheza, fico imaginando minha filha aconchegada nelas e penso que ali é uma das casas da felicidade.
Já que não pode simplesmente dispensar as roupas, escolhe entre as mais velhas, amaciadas pelo uso muito. Se fosse anos antes, vendo-nos aprontar uma bagagem daquele modo, nos daria uma bronca, tamanha a desorganização. Mas agora ele pode dar-se a esses e outros direitos, como pentear os parcos cabelos com escovas de lavar roupa, passar o dia inteiro com a mesma cueca e, muito sutil e manhosamente, pedir que lhe sejam tirados os cravinhos das costas.
Vendo as curvas ganhas nos últimos anos, as quais ainda me causam estranheza, fico imaginando minha filha aconchegada nelas e penso que ali é uma das casas da felicidade.
domingo, 15 de agosto de 2010
sexta-feira, 11 de junho de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
domingo, 18 de abril de 2010
Tons de verdes espraiados nas praças,
frio de chuva muita,
café servidor público depois das 15h.
Palavras confessadas na madrugada,
luz do sol antes das 7h,
casacos para tomar sorvete.
Longos percursos de ônibus
propositalmente fadados ao fracasso;
um jeito de manter as coisas em desordem,
só para deleitar o caos.
A vogal do seixo transparente,
o desengano de certos silêncios,
ruas datadas desafiando a memória,
almoço literário
e, quem sabe, música ao vivo no fim do domingo.
Estás em tudo.
Foram tantas as conspirações a favor
que cheguei a pensar que até mesmo aquilo fosse.
Não foi.
Vim
e intensas escapam gotas de tristeza;
vazam a minha rudeza:
como pude, de ti me perder?
No encontro de um pouso,
desejo haver um ponto
onde te possa ser convite.
Aceito
O que nos reservar as voltas dadas
Que seja de azul,
vento no cabelo,
sossego de chocolate,
sono até mais tarde,
saias a girar.
[ao presente de que me ausentei]
frio de chuva muita,
café servidor público depois das 15h.
Palavras confessadas na madrugada,
luz do sol antes das 7h,
casacos para tomar sorvete.
Longos percursos de ônibus
propositalmente fadados ao fracasso;
um jeito de manter as coisas em desordem,
só para deleitar o caos.
A vogal do seixo transparente,
o desengano de certos silêncios,
ruas datadas desafiando a memória,
almoço literário
e, quem sabe, música ao vivo no fim do domingo.
Estás em tudo.
Foram tantas as conspirações a favor
que cheguei a pensar que até mesmo aquilo fosse.
Não foi.
Vim
e intensas escapam gotas de tristeza;
vazam a minha rudeza:
como pude, de ti me perder?
No encontro de um pouso,
desejo haver um ponto
onde te possa ser convite.
Aceito
O que nos reservar as voltas dadas
Que seja de azul,
vento no cabelo,
sossego de chocolate,
sono até mais tarde,
saias a girar.
[ao presente de que me ausentei]
domingo, 4 de abril de 2010
Na última grade da fruteira, colocou as revistas.
Pensou na mãe sempre repetindo que comida deveria ficar longe do chão e na prima, às costas dela, dizendo que, se assim fosse, quê seria das melancias? E as macaxeiras?
Aos poucos, tudo se punha no devido lugar.
O latido da cadela agonizante soava como a materialização da teimosia - além de não morrer, ela ficava ali, jogando na cara do mundo o sucesso de sua insistência em ficar viva. Lembrou da afirmativa associando teimosia e burrice. O que lhe estaria movendo, agora?
Nos tempos de cigarros e bares, talvez isso fosse pauta de debates acirrados. Por hora, simplesmente agradecia a chuva e a furadeira do vizinho, abafando o latido da cadela e o sentimento de paridade com ela, enquanto saboreava os pés no chão frio e limpo daquela nova morada.
Pensou na mãe sempre repetindo que comida deveria ficar longe do chão e na prima, às costas dela, dizendo que, se assim fosse, quê seria das melancias? E as macaxeiras?
Aos poucos, tudo se punha no devido lugar.
O latido da cadela agonizante soava como a materialização da teimosia - além de não morrer, ela ficava ali, jogando na cara do mundo o sucesso de sua insistência em ficar viva. Lembrou da afirmativa associando teimosia e burrice. O que lhe estaria movendo, agora?
Nos tempos de cigarros e bares, talvez isso fosse pauta de debates acirrados. Por hora, simplesmente agradecia a chuva e a furadeira do vizinho, abafando o latido da cadela e o sentimento de paridade com ela, enquanto saboreava os pés no chão frio e limpo daquela nova morada.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
No chão de palha e espinho, sob frio de chuva e calor de fogo, comunguei feminilidades.
Da beira do açude, pedi aos raios que desmanchassem minhas tristezas e à lua que clareasse os caminhos.
No escuro da gruta, confiei nas mãos estendidas e me desfiz de um medo.
Ganhei uma pedra e monte de alívio no meu coração.
De alma lavada e defumada, sigo trinta adentro, com força e amor, em busca de paz.
[Bienvenido 2010]
Da beira do açude, pedi aos raios que desmanchassem minhas tristezas e à lua que clareasse os caminhos.
No escuro da gruta, confiei nas mãos estendidas e me desfiz de um medo.
Ganhei uma pedra e monte de alívio no meu coração.
De alma lavada e defumada, sigo trinta adentro, com força e amor, em busca de paz.
[Bienvenido 2010]
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