segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Em meio ao forte cheiro de esgoto curtido, o que brilha são os olhos do menino diante da novidade e uma bolsa velha. O homem velho e sujo levanta do chão, próximo à fossa, e entra na casa, levando consigo mais uma das fortes impressões de que, nesse universo, não houve registro do que significa dignidade. Enfim, acharam-se os documentos, a mulher vem pra fora, o velho volta, se agacha com a naturalidade das crianças, manipula pedras, pedaços de si, vestígios de loucura. O som alto invoca uma aura de encanto, o homem bêbado pede permissão pra sonhar; na frente, sobressaem as caixas de som e a menor criança sobe num tijolo em meio à lama. Outros papeis surgem muito bem guardados em sacos plásticos, a criança maior volta, olha o velho sem afetos, toca a mãe com descaso. Vejo na jovem as curvas de que falou o arquiteto, busco um mínimo desse enlevo e encontro as costelas finas da criança, penso nas distâncias, na diferença, nas ausências...



[Alto do Céu, João Pessoa, Abril de 2006]

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