Durante uns bons anos, era isso o que preenchia o campo 'cargo/função' do contracheque de meu pai. Ele, que trabalhara com tantas coisas na vida, tinha a carpintaria como ofício e por ele fora reconhecido como alguém importante para integrar o Grupo de Trabalho de Brasília.
Na Capital em construção, os caminhões chegavam cheios de móveis de madeira, que deles desciam com as mais diversas avarias. Um dos colegas com quem trabalhava o homem mais forte do que o físico denunciava o indicou como alguém bom para a tarefa de descarregar os caminhões e fazer os consertos que a carga precisava: O nome é difícil, melhor chamar de Pará, foi de onde veio o caboclo branco.
E então a caixa de ferramentas compunha a decoração do apartamento de 58m² e dos meus sonhos de criança. Quando muito, ele me deixava brincar com os lápis vermelhos de ponta grossa, com os quais marcava na madeira o lugar por onde passaria o serrote. Depois vinha a plaina, deixando a peça lisa e o chão cacheado. Em seguida, a lixa d'água e por fim o verniz. Mas bom mesmo era lustrar com cera de carnaúba, um carinho pra madeira, raro porque caro.
Nesse e noutros serviços pesados, as mãos de meu pai se conformaram grossas. A espessura da pele, dos dedos, das unhas. Tudo bruto. Uma força absurda, que me impressionou até o último afago, sem jamais me colocar medo. Naquelas mãos de espartano cabia um universo de delicadeza, cultivando flores e ervas, temperando peixes, extraindo sumos, alinhando meus cabelos, consolando minhas dores.
Tenho muitas faltas na minha vida.
Hoje, a mais aguda é o conforto da mão de carpinteiro de meu pai.
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