Não fora aprovado em concurso, mas tinha plano de carreira, estabilidade, remuneração fixa, gratificação por funções extras, cartão de ponto, fim de ano com confraternização sem laços fraternos, lista de amigo secreto e, se brincasse, até I will survive no fim da festa. Resolvi, então, dar-lhe uma licença-prêmio. Afinal, quase trinta anos de casa... sem falar que os últimos cinco haviam sido profundamente atribulados. Mas a idade pesa, memória e atenção uma bosta, e sempre fui ruim de contas, nem notei que já haviam passado seis meses. Daí que ele voltou ao trabalho, revigorado e cheio de disposição, com gosto e gás, como se diz. Mas num acompanho seu pique, ando cansada. Janis Joplin e Cazuza confortam, bom ter almas vagando num limbo quase imbecil como o meu. Mas eu canto mal pra caralho, não toco nenhum instrumento nem tenho genialidade poética. Durmo o cansaço de quem tem um coração funcionário público. Um velho e comprometido funcionário público que, se destituído da função, chega a perder a noção de si, preferindo um infarto à aposentadoria. Nada pior do que hábitos arraigados. Ainda mais quando envolve muito prazer...
[12nov07]
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Algumas atualizações:
- Quase trinta mesmo. U-hu.
- Fiona Apple conforta muitíssimo bem, também.
- Descobri que canto menos mal do que pensava.
- Estou aprendendo a tocar um instrumento. Lânguido como convém.
- Nem há tanto prazer assim...
- Mais de um ano depois: que merda, hein, essa mesmice?
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