
Jamais poderei ouvir Roberto Carlos sem pensar em você. Se ele tiver cantando os caracóis tão seus, tão nossos, o choro será também inevitável. Fiquei chata, muitíssimo, amarguei cedo. Isso muitas vezes me faz agoniar com seu ritmo, seu jeito, horas tão diferentes dos meus, hora tão parecidos. Mas nada diz de aconchego como a lembrança de deitar com a cabeça nas suas costas, debaixo do cobertor Paraíba marrom. Nada diz de verdades do mundo como a lembrança do teu choro das dores tantas e do teu riso das bobagens simples.
Você teria voado além do sonho, se tivessem te dado asas formais. Você coloriu e cantou e pôs muita delicadeza em muitas vidas, em muitas gerações. Você me mostrou a coragem banal que é necessária para partir, atrás do desconhecido que atrai mais que o esperado. Você tem a força vigorosa das mulheres mitológicas do rio caudaloso, guerreiras furiosas, loucas de vida, como ouso carregar nos meus olhos e ombros.
Você me pariu com música e aí eu fiquei assim, cadenciada, sonora, expandindo-me onde houver ar. E eu jamais poderei agradecer o suficiente. Abri mão das unhas fortes que sempre foram a tua vaidade para fazer música, um muito na esperança de fazer soar beleza no mundo como você tem feito, nesses sessenta e seis anos.
Espero ser para ti apenas isso: parte bem semeada da jardinagem que compões todo dia.

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