sexta-feira, 27 de maio de 2016

era uma notícia sobre nus. na verdade, um informe do Catarse de projetos sobre o tema. três, pareceram bem bacanas, um só com homens. lembrei você.

em outros tempos, o clique iria certeiro em encaminhar a mensagem, seguido de um aviso via WhatsApp. muito provavelmente dispararia uma conversa sobre o tema. isso de a Internet abrir espaço pro nu, desde as coisas escrotas que rolam na deep web, tipo necrofilia, até esses lances permeados por reflexão crítica e compromisso estético.

mas aí me vi nua na porta do seu banheiro, escova de dente na mão, inocente de que eu seria capaz de te fazer mal por uns beijos. pior, que você seria incapaz de me negar uns beijos. tanto que eu me dei, tão pouco que você se apropriou.

nem abri os links, apaguei a mensagem.
isso não é mais seu.
assim como eu.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Artífice em carpintaria

Durante uns bons anos, era isso o que preenchia o campo 'cargo/função' do contracheque de meu pai. Ele, que trabalhara com tantas coisas na vida, tinha a carpintaria como ofício e por ele fora reconhecido como alguém importante para integrar o Grupo de Trabalho de Brasília.

Na Capital em construção, os caminhões chegavam cheios de móveis de madeira, que deles desciam com as mais diversas avarias. Um dos colegas com quem trabalhava o homem mais forte do que o físico denunciava o indicou como alguém bom para a tarefa de descarregar os caminhões e fazer os consertos que a carga precisava: O nome é difícil, melhor chamar de Pará, foi de onde veio o caboclo branco.

E então a caixa de ferramentas compunha a decoração do apartamento de 58m² e dos meus sonhos de criança. Quando muito, ele me deixava brincar com os lápis vermelhos de ponta grossa, com os quais marcava na madeira o lugar por onde passaria o serrote. Depois vinha a plaina, deixando a peça lisa e o chão cacheado. Em seguida, a lixa d'água e por fim o verniz. Mas bom mesmo era lustrar com cera de carnaúba, um carinho pra madeira, raro porque caro.

Nesse e noutros serviços pesados, as mãos de meu pai se conformaram grossas. A espessura da pele, dos dedos, das unhas. Tudo bruto. Uma força absurda, que me impressionou até o último afago, sem jamais me colocar medo. Naquelas mãos de espartano cabia um universo de delicadeza, cultivando flores e ervas, temperando peixes, extraindo sumos, alinhando meus cabelos, consolando minhas dores.

Tenho muitas faltas na minha vida.
Hoje, a mais aguda é o conforto da mão de carpinteiro de meu pai.

domingo, 4 de janeiro de 2015

vestir a roupa, descobrir bolsos, sorrir molecagens [clari.ando I]
céus de chumbo rasgados de eletricidade, e elas garbosas, divas vegetais [sibipirunas - 21dez14]
Nos desconheço em muitas coisas. Tantas, que às vezes me pergunto se ainda é possível falar em 'nós'. Se sim, minha hipótese é de que nos acompanha firme o lirismo. Esse lirismo de cuidar de bicho, se encantar de planta, rir de criança. [3ª pessoa do plural]

domingo, 2 de março de 2014

Uma boca pela manhã, outra à noite. Quantas mais caberiam em um dia? E pela vida? Enquanto pensava, sentiu a saliva invadir a língua e se perguntou se seria pelas possibilidades cogitadas ou pelo tomate que cortava para a salada. Foi tirada desses pensamentos pela mão larga na curva do braço. Virou e deu de cara com o sorriso que respondeu tudo: bom mesmo era se fazer perguntas vãs na certeza de ser amada.
Poucas mulheres são para plumas. [27jul13]

segunda-feira, 25 de março de 2013

Paz. É o que me invade quando me reencontro contigo como se a última vez tivesse sido na respiração anterior, não há meses.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

se me queres meramente compreensiva, quase submissa, é porque me sabes pouco demais para me mereceres com plenitude.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

toda a angústia agora era uma só: como dizer-lhe que queria amar de novo, daquele jeito que não sabia mais?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ele põe as coisas em cores e formas tais que as palavras se desmancham, incapazes de darem conta daquilo que pulso e transbordo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Se desconcentrou por um instante e eis que o cotidiano a esvaziara.
Olhava para dentro, olhos inquietos passeando cada meandro em busca do que, de repente, não havia.
E, como cada vez mais desadmirava a teimosia, clicou alt+f4 e em seguida aumentou o volume da Calcanhotto. Era isso. Dançar cantando desafinado e cuidar da vida, que as palavras só dizem do que há para dizer.
E ponto.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O tamanho do caixão dava a dimensão do quanto a adolescente ainda tinha mais de menina que de moça. A madeira barata estava fosca como os olhos de cotia do meu primo, miúdos, redondos e pretos. Não pude mais que lhe apertar a mão e dizer eu lamento.

Depois, sozinha em meio aos estranhos no ônibus, chorei a tristeza de saber que, como ela, muitas outras são violentamente retiradas da vida sem a chance de conhecer dela as belezas e alegrias que valem a pena.

Que o tempo nos conforte...



[À mocinha, meu lamento]

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A teimosia não o deixa aceitar colocar a valise sobre a cadeira, de modo que ela permanece sobre o chão enquanto ele a arruma. Para isso, dobra a coluna exatamente como os ortopedistas dizem que ninguém deve fazer. Quando ela cansa, ele dobra os joelhos sentando-se sobre uma das pernas, evidenciando o poder da genética: vi vários de nossa terceira geração fazerem igual.

Já que não pode simplesmente dispensar as roupas, escolhe entre as mais velhas, amaciadas pelo uso muito. Se fosse anos antes, vendo-nos aprontar uma bagagem daquele modo, nos daria uma bronca, tamanha a desorganização. Mas agora ele pode dar-se a esses e outros direitos, como pentear os parcos cabelos com escovas de lavar roupa, passar o dia inteiro com a mesma cueca e, muito sutil e manhosamente, pedir que lhe sejam tirados os cravinhos das costas.

Vendo as curvas ganhas nos últimos anos, as quais ainda me causam estranheza, fico imaginando minha filha aconchegada nelas e penso que ali é uma das casas da felicidade.

domingo, 15 de agosto de 2010

Madeira, fogo, desenhos.
Nós dois em uns,
vários,
belos.



[Caixa de correios - 14ago10]

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Não sou uma guerreira amazona.
Não sou.

Armada de artes,
entrego o bucho da cria ao beijo do pai,
a quem degusto como quem medita.

Simplesmente,
sou uma flor amazônida
fluindo nos rios
ao sabor do vento quente.

sábado, 15 de maio de 2010

Um belo par de pernas
e olhos de gude
(como as bolinhas da brincadeira de nossa infância).
Dedos fortes,
para talhar, dedilhar, conduzir, firmar.
Tez de terra e a certeza,
sempre dadivosa,
de ser puro feito de amor



[Duas listras - 13mai10]

domingo, 18 de abril de 2010

Tons de verdes espraiados nas praças,
frio de chuva muita,
café servidor público depois das 15h.

Palavras confessadas na madrugada,
luz do sol antes das 7h,
casacos para tomar sorvete.

Longos percursos de ônibus
propositalmente fadados ao fracasso;
um jeito de manter as coisas em desordem,
só para deleitar o caos.

A vogal do seixo transparente,
o desengano de certos silêncios,
ruas datadas desafiando a memória,
almoço literário
e, quem sabe, música ao vivo no fim do domingo.

Estás em tudo.

Foram tantas as conspirações a favor
que cheguei a pensar que até mesmo aquilo fosse.
Não foi.

Vim
e intensas escapam gotas de tristeza;
vazam a minha rudeza:
como pude, de ti me perder?

No encontro de um pouso,
desejo haver um ponto
onde te possa ser convite.

Aceito

O que nos reservar as voltas dadas

Que seja de azul,
vento no cabelo,
sossego de chocolate,
sono até mais tarde,
saias a girar.



[ao presente de que me ausentei]

domingo, 4 de abril de 2010

Te desejei leve e azul
como a vista que se tem
ao olhar de um gramado para cima.

Mas o dia estava nublado,
e, do ônibus,
o horizonte foi apenas cinza-saudade
como o inverno em São Paulo.
Na última grade da fruteira, colocou as revistas.
Pensou na mãe sempre repetindo que comida deveria ficar longe do chão e na prima, às costas dela, dizendo que, se assim fosse, quê seria das melancias? E as macaxeiras?

Aos poucos, tudo se punha no devido lugar.

O latido da cadela agonizante soava como a materialização da teimosia - além de não morrer, ela ficava ali, jogando na cara do mundo o sucesso de sua insistência em ficar viva. Lembrou da afirmativa associando teimosia e burrice. O que lhe estaria movendo, agora?

Nos tempos de cigarros e bares, talvez isso fosse pauta de debates acirrados. Por hora, simplesmente agradecia a chuva e a furadeira do vizinho, abafando o latido da cadela e o sentimento de paridade com ela, enquanto saboreava os pés no chão frio e limpo daquela nova morada.