domingo, 2 de março de 2014

Uma boca pela manhã, outra à noite. Quantas mais caberiam em um dia? E pela vida? Enquanto pensava, sentiu a saliva invadir a língua e se perguntou se seria pelas possibilidades cogitadas ou pelo tomate que cortava para a salada. Foi tirada desses pensamentos pela mão larga na curva do braço. Virou e deu de cara com o sorriso que respondeu tudo: bom mesmo era se fazer perguntas vãs na certeza de ser amada.
Poucas mulheres são para plumas. [27jul13]

segunda-feira, 25 de março de 2013

Paz. É o que me invade quando me reencontro contigo como se a última vez tivesse sido na respiração anterior, não há meses.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

se me queres meramente compreensiva, quase submissa, é porque me sabes pouco demais para me mereceres com plenitude.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

toda a angústia agora era uma só: como dizer-lhe que queria amar de novo, daquele jeito que não sabia mais?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ele põe as coisas em cores e formas tais que as palavras se desmancham, incapazes de darem conta daquilo que pulso e transbordo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Se desconcentrou por um instante e eis que o cotidiano a esvaziara.
Olhava para dentro, olhos inquietos passeando cada meandro em busca do que, de repente, não havia.
E, como cada vez mais desadmirava a teimosia, clicou alt+f4 e em seguida aumentou o volume da Calcanhotto. Era isso. Dançar cantando desafinado e cuidar da vida, que as palavras só dizem do que há para dizer.
E ponto.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O tamanho do caixão dava a dimensão do quanto a adolescente ainda tinha mais de menina que de moça. A madeira barata estava fosca como os olhos de cotia do meu primo, miúdos, redondos e pretos. Não pude mais que lhe apertar a mão e dizer eu lamento.

Depois, sozinha em meio aos estranhos no ônibus, chorei a tristeza de saber que, como ela, muitas outras são violentamente retiradas da vida sem a chance de conhecer dela as belezas e alegrias que valem a pena.

Que o tempo nos conforte...



[À mocinha, meu lamento]

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A teimosia não o deixa aceitar colocar a valise sobre a cadeira, de modo que ela permanece sobre o chão enquanto ele a arruma. Para isso, dobra a coluna exatamente como os ortopedistas dizem que ninguém deve fazer. Quando ela cansa, ele dobra os joelhos sentando-se sobre uma das pernas, evidenciando o poder da genética: vi vários de nossa terceira geração fazerem igual.

Já que não pode simplesmente dispensar as roupas, escolhe entre as mais velhas, amaciadas pelo uso muito. Se fosse anos antes, vendo-nos aprontar uma bagagem daquele modo, nos daria uma bronca, tamanha a desorganização. Mas agora ele pode dar-se a esses e outros direitos, como pentear os parcos cabelos com escovas de lavar roupa, passar o dia inteiro com a mesma cueca e, muito sutil e manhosamente, pedir que lhe sejam tirados os cravinhos das costas.

Vendo as curvas ganhas nos últimos anos, as quais ainda me causam estranheza, fico imaginando minha filha aconchegada nelas e penso que ali é uma das casas da felicidade.

domingo, 15 de agosto de 2010

Madeira, fogo, desenhos.
Nós dois em uns,
vários,
belos.



[Caixa de correios - 14ago10]

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Não sou uma guerreira amazona.
Não sou.

Armada de artes,
entrego o bucho da cria ao beijo do pai,
a quem degusto como quem medita.

Simplesmente,
sou uma flor amazônida
fluindo nos rios
ao sabor do vento quente.

sábado, 15 de maio de 2010

Um belo par de pernas
e olhos de gude
(como as bolinhas da brincadeira de nossa infância).
Dedos fortes,
para talhar, dedilhar, conduzir, firmar.
Tez de terra e a certeza,
sempre dadivosa,
de ser puro feito de amor



[Duas listras - 13mai10]

domingo, 18 de abril de 2010

Tons de verdes espraiados nas praças,
frio de chuva muita,
café servidor público depois das 15h.

Palavras confessadas na madrugada,
luz do sol antes das 7h,
casacos para tomar sorvete.

Longos percursos de ônibus
propositalmente fadados ao fracasso;
um jeito de manter as coisas em desordem,
só para deleitar o caos.

A vogal do seixo transparente,
o desengano de certos silêncios,
ruas datadas desafiando a memória,
almoço literário
e, quem sabe, música ao vivo no fim do domingo.

Estás em tudo.

Foram tantas as conspirações a favor
que cheguei a pensar que até mesmo aquilo fosse.
Não foi.

Vim
e intensas escapam gotas de tristeza;
vazam a minha rudeza:
como pude, de ti me perder?

No encontro de um pouso,
desejo haver um ponto
onde te possa ser convite.

Aceito

O que nos reservar as voltas dadas

Que seja de azul,
vento no cabelo,
sossego de chocolate,
sono até mais tarde,
saias a girar.



[ao presente de que me ausentei]

domingo, 4 de abril de 2010

Te desejei leve e azul
como a vista que se tem
ao olhar de um gramado para cima.

Mas o dia estava nublado,
e, do ônibus,
o horizonte foi apenas cinza-saudade
como o inverno em São Paulo.
Na última grade da fruteira, colocou as revistas.
Pensou na mãe sempre repetindo que comida deveria ficar longe do chão e na prima, às costas dela, dizendo que, se assim fosse, quê seria das melancias? E as macaxeiras?

Aos poucos, tudo se punha no devido lugar.

O latido da cadela agonizante soava como a materialização da teimosia - além de não morrer, ela ficava ali, jogando na cara do mundo o sucesso de sua insistência em ficar viva. Lembrou da afirmativa associando teimosia e burrice. O que lhe estaria movendo, agora?

Nos tempos de cigarros e bares, talvez isso fosse pauta de debates acirrados. Por hora, simplesmente agradecia a chuva e a furadeira do vizinho, abafando o latido da cadela e o sentimento de paridade com ela, enquanto saboreava os pés no chão frio e limpo daquela nova morada.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Duas pessoas não podem se cruzar na véspera, mas somente quando amadurecem para o encontro; amadurecer não somente nas inclinações, mas no íntimo.



Tita Mendes

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

No chão de palha e espinho, sob frio de chuva e calor de fogo, comunguei feminilidades.
Da beira do açude, pedi aos raios que desmanchassem minhas tristezas e à lua que clareasse os caminhos.
No escuro da gruta, confiei nas mãos estendidas e me desfiz de um medo.
Ganhei uma pedra e monte de alívio no meu coração.
De alma lavada e defumada, sigo trinta adentro, com força e amor, em busca de paz.



[Bienvenido 2010]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Percussão de paz:
teus cabelos batucando barulho de chuva no meu capacete,
sob a noite morna.



[29dez09]

domingo, 20 de dezembro de 2009

Shopping, mês natalino, fim de expediente, dia da promoção do cinema, praça de alimentação.

Como abençoado é o inusitado, neste contexto dos mais desfavoráveis, a poética do cotidiano se encenou: um casal de jovens senhores - casa dos "enta", cabelos grisalhos, rugas respeitadas, tons sóbrios - namorava. E corou e riu muito diante da pergunta: os pais de vocês sabem que vocês estão namorando no shopping em plena quarta-feira?

Diante da brincadeira que se encerrou em elogio, me pergunto quem terá vivido o momento mais epifânico. Nós ou eles?

sábado, 19 de dezembro de 2009

Começou a juntar as peças de roupa como num resgate das tripas para o devido lugar.

Caso só estivesse, teria fumado, para ter uma companhia meramente calorosa. Em respeito aos que estavam do outro lado da porta, alheados da imensidão de dor sentida do lado de dentro, apenas cuidava para não escorregar no que das lágrimas chegava ao chão. E aquilo se lhe mostrou como o fundo do poço.

Pensou que, para sempre, a imagem do inferno lhe seria aquela:
seu niño
de branco
descalço
sentado entre hostis estranhos.

Jamais pensara que cores lhe agrediriam. Dissera que por ninguém se sujeitaria. E eis que, naquele momento, enquanto juntava as roupas se esforçando por admirar-lhes as cores, soube que iria. Dobrada a última peça, respirou fundo e olhou para a porta.

Em seguida,
girou a maçaneta e saiu,
em busca do vento.