Ela dançou. E foi ela.
Ela.
Ela.
Mais que imaginar, eu pude sentir,
tive sentindo,
a cada nota do acordeon degustado
junto à distância.
[Tango]
sexta-feira, 6 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Todo mundo tem o direito
De viver cantando
O meu único defeito
É viver pensando
Em que não realizei
E é difícil realizar
Se eu pudesse dar um jeito
Mudaria o meu pensar
O pensamento é uma folha desprendida
Do galho de nossas vidas
Que o vento leva e conduz
É uma luz vacilante e cega
É o silêncio do cipreste
Escoltado pela cruz
[Silêncio de um cipreste - Cartola & Carlos Cachaça]
____________________________________________________
Ah, se fosse só tu, Cartola!...
De viver cantando
O meu único defeito
É viver pensando
Em que não realizei
E é difícil realizar
Se eu pudesse dar um jeito
Mudaria o meu pensar
O pensamento é uma folha desprendida
Do galho de nossas vidas
Que o vento leva e conduz
É uma luz vacilante e cega
É o silêncio do cipreste
Escoltado pela cruz
[Silêncio de um cipreste - Cartola & Carlos Cachaça]
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Ah, se fosse só tu, Cartola!...
domingo, 1 de março de 2009
Debaixo do mar viaja o canto das baleias, que cantam se chamando.
Pelos ares viaja o assovio do caminhante, que busca teto e mulher para fazer a noite.
E pelo mundo e pelos anos, viaja a avó.
A avó viaja perguntando:
- Quanto falta?
Ela se deixa levar do telhado da casa e navega sobre a Terra. Sua barca viaja para a infância e para o nascimento e para antes:
- Quanto falta para chegar?
A avó Raquel está cega, mas enquanto viaja vê os tempos idos, vê os tempos perdidos: lá onde as galinhas põem ovos de avestruz, os tomates são como abóboras e não há trevos que não tenham quatro folhas.
Cravada em sua cadeira, muito penteada e muito limpinha e engomadinha, a avó viaja sua viagem pelo avesso e convida a todos nós:
- Não tenham medo - diz. - Eu não tenho medo.
E a leve barca desliza pela Terra e pelo tempo.
- Falta muito? - pergunta a avó, enquanto vai.
[Janela sobre a memória; Eduardo Galeano, Mujeres]
__________________________________________________
Para mim mesma,
já tia-avó,
já viajando pela infância e pelo o avesso,
mas ainda com medo.
Pelos ares viaja o assovio do caminhante, que busca teto e mulher para fazer a noite.
E pelo mundo e pelos anos, viaja a avó.
A avó viaja perguntando:
- Quanto falta?
Ela se deixa levar do telhado da casa e navega sobre a Terra. Sua barca viaja para a infância e para o nascimento e para antes:
- Quanto falta para chegar?
A avó Raquel está cega, mas enquanto viaja vê os tempos idos, vê os tempos perdidos: lá onde as galinhas põem ovos de avestruz, os tomates são como abóboras e não há trevos que não tenham quatro folhas.
Cravada em sua cadeira, muito penteada e muito limpinha e engomadinha, a avó viaja sua viagem pelo avesso e convida a todos nós:
- Não tenham medo - diz. - Eu não tenho medo.
E a leve barca desliza pela Terra e pelo tempo.
- Falta muito? - pergunta a avó, enquanto vai.
[Janela sobre a memória; Eduardo Galeano, Mujeres]
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Para mim mesma,
já tia-avó,
já viajando pela infância e pelo o avesso,
mas ainda com medo.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
10dez08
Minha criança querida, retratos de infância para quem, depois de muito, vaga em busca da sua.
Quisera eu ter encontrado, como Amélie, uma caixinha com objetos que te fizessem recordar! Que as palavras de Manoel te tragam gosto de detergente, desenho de escola, colo de mãe.
Amo.
Mafalda
_______________________________________
A melhor caixa é você.
Ao mesmo tempo, como a achada pela Amélie e como a de Pandora, como a bolsa da Mary Poppins e a bolsinha com pó de pirlimpimpim da Sininho, como o pote ao final do arco-íris e o pote de doces da brincadeira junina.
[Criancices]
Minha criança querida, retratos de infância para quem, depois de muito, vaga em busca da sua.
Quisera eu ter encontrado, como Amélie, uma caixinha com objetos que te fizessem recordar! Que as palavras de Manoel te tragam gosto de detergente, desenho de escola, colo de mãe.
Amo.
Mafalda
_______________________________________
A melhor caixa é você.
Ao mesmo tempo, como a achada pela Amélie e como a de Pandora, como a bolsa da Mary Poppins e a bolsinha com pó de pirlimpimpim da Sininho, como o pote ao final do arco-íris e o pote de doces da brincadeira junina.
[Criancices]
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Sono? Nenhum.
Talvez num tivesse notado, num fossem os pássaros.
Oito meses passados em revisão.
Tons de rosa e laranja no céu compõem
com o kirigami no vidro da janela
e o lençol na cama.
'Amanheceu é hora de dormir'
A trilha?
Um preto com um amarelo,
fazendo algo pelo que valeu a pena estar vivo pra ver,
como disse o chefe.
Revi a menina dançando,
enquanto postes se apagavam
e você repetia o gesto do desenho.
Assumo mundanidades
e o desejo pelo mais popular.
Ainda pensando nos outros -
quantos! quantos mais? -
deságuo um tanto.
Então,
o céu já vai azul e branco.
[Cedo]
Talvez num tivesse notado, num fossem os pássaros.
Oito meses passados em revisão.
Tons de rosa e laranja no céu compõem
com o kirigami no vidro da janela
e o lençol na cama.
'Amanheceu é hora de dormir'
A trilha?
Um preto com um amarelo,
fazendo algo pelo que valeu a pena estar vivo pra ver,
como disse o chefe.
Revi a menina dançando,
enquanto postes se apagavam
e você repetia o gesto do desenho.
Assumo mundanidades
e o desejo pelo mais popular.
Ainda pensando nos outros -
quantos! quantos mais? -
deságuo um tanto.
Então,
o céu já vai azul e branco.
[Cedo]
'É tudo seu?'
Quase tudo.
O que não quer dizer que o 'meu tudo' sejam fatos.
Há o que eu crio.
Crio?
Crio, sim, ué.
Crio.
Porque o que tenho a botar pra fora é o que vivo. E o que crio faz parte do que vivo. Portanto - ou tão pouco - parte dos 'eus' e 'vocês' daqui nasceram apenas meus personagens, diálogos internos. Então, há identificações que cabem. Dessas, quem sabe, sabe. Outras, ficam por conta do freguês.
Quase tudo.
O que não quer dizer que o 'meu tudo' sejam fatos.
Há o que eu crio.
Crio?
Crio, sim, ué.
Crio.
Porque o que tenho a botar pra fora é o que vivo. E o que crio faz parte do que vivo. Portanto - ou tão pouco - parte dos 'eus' e 'vocês' daqui nasceram apenas meus personagens, diálogos internos. Então, há identificações que cabem. Dessas, quem sabe, sabe. Outras, ficam por conta do freguês.
Lá do alto do telhado
pula quem quiser
Só o gato que é gaiato
cai de pé
_________________________________________
Assim diz a música.
E foi dela que me lembrei quando olhei pro chão e a girafa - aquela, hipocondríaca - tava em pésinha, olhar firme pra parede. Num pulou porque quis, foi o vento que derrubou. E ela caiu de pé. Depois da música, me ocorreu: ó como o inesperado acontece! Como tantas outras coisas acontecem...
O que me remete a outra música, mestre Cartola.
_________________________________________
Esquece o nosso amor, vê se esquece.
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai chorar, vai sofrer, e você não merece,
Mas isso acontece.
Acontece que o meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.
pula quem quiser
Só o gato que é gaiato
cai de pé
_________________________________________
Assim diz a música.
E foi dela que me lembrei quando olhei pro chão e a girafa - aquela, hipocondríaca - tava em pésinha, olhar firme pra parede. Num pulou porque quis, foi o vento que derrubou. E ela caiu de pé. Depois da música, me ocorreu: ó como o inesperado acontece! Como tantas outras coisas acontecem...
O que me remete a outra música, mestre Cartola.
_________________________________________
Esquece o nosso amor, vê se esquece.
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai chorar, vai sofrer, e você não merece,
Mas isso acontece.
Acontece que o meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
lavar a louça do café-ler crônicas consult
ando o dicionário-guardar a louça do caf
é-desligar a geladeira-fazer o almoço-dei
xar a pia limpa-almoçar-limparageladeira.
lavaralouçadoalmoço.limparofogão.limparoc
hãodacozinha.limparasparedesdacozinha.lav
arospanosdechão-revisar o texto-sentir do
res nas costas-insistir.teimar.birrar.cansar.esgotar.
obsessiva?
não.
a muléstia!
[23fev09]
ando o dicionário-guardar a louça do caf
é-desligar a geladeira-fazer o almoço-dei
xar a pia limpa-almoçar-limparageladeira.
lavaralouçadoalmoço.limparofogão.limparoc
hãodacozinha.limparasparedesdacozinha.lav
arospanosdechão-revisar o texto-sentir do
res nas costas-insistir.teimar.birrar.cansar.esgotar.
obsessiva?
não.
a muléstia!
[23fev09]
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Eu escreveria um conto ou um canto,
se eu soubesse como.
Eu iria a seu encontro,
se eu tivesse como.
Mas chove muito, meus escritos são deveras curtos,
meus cantos todos de outros e meu encontro aqui, comigo.
Por meio de alguns livros, poucos discos e muitas músicas,
várias letras juntas e idéias separadas,
conversas diurnas e com a madrugada.
De projetos de desenhos e de trabalhos que eu sei como.
De planos de viagem em que você talvez quisesse ir junto.
Mas chove muito, e eu poderia apenas esquecer tudo,
se eu não sentisse tanto
[Ingerência]
se eu soubesse como.
Eu iria a seu encontro,
se eu tivesse como.
Mas chove muito, meus escritos são deveras curtos,
meus cantos todos de outros e meu encontro aqui, comigo.
Por meio de alguns livros, poucos discos e muitas músicas,
várias letras juntas e idéias separadas,
conversas diurnas e com a madrugada.
De projetos de desenhos e de trabalhos que eu sei como.
De planos de viagem em que você talvez quisesse ir junto.
Mas chove muito, e eu poderia apenas esquecer tudo,
se eu não sentisse tanto
[Ingerência]
domingo, 22 de fevereiro de 2009
E como se eles escrevessem para mim.
Diálogos fascinantes posto que atemporais, intensos e plenos,
a despeito de materializações outras
que o encontro humano.
Isso me dá colo e aconchego,
a certeza do bem do rumo,
reforçada pelas descobertas.
Sinto paz.
A ti, escrevo eu,
por mim, pelo que alivia:
perdi-te.
Com a tristeza de qualquer perda, sem lamentos,
por diante de uma expressão do possível,
obra da transitoriedade.
Não tenho a dar porquês, quandos, ses.
Só preciso respeito
e desejo leve.
[Foi]
Diálogos fascinantes posto que atemporais, intensos e plenos,
a despeito de materializações outras
que o encontro humano.
Isso me dá colo e aconchego,
a certeza do bem do rumo,
reforçada pelas descobertas.
Sinto paz.
A ti, escrevo eu,
por mim, pelo que alivia:
perdi-te.
Com a tristeza de qualquer perda, sem lamentos,
por diante de uma expressão do possível,
obra da transitoriedade.
Não tenho a dar porquês, quandos, ses.
Só preciso respeito
e desejo leve.
[Foi]
- Joga no chão que solta.
Não sei se foi mais de uma, mas de pelo menos uma eu lembro. A corrente era dela, eu atrás de desatar o nó e, junto com seu sorriso de quando tava ensinando algo bacana, ela me disse: joga no chão que solta.
Quantos meses? Quantos? Num faço idéia.
Uma, duas, três, zil vezes o dedinho no play.
Uma frase e outra, fragmentos.
Aspas, diferentes escritas, n tentativas.
Nada de São Google me dar cabimento.
Daí que hoje foi.
Fácil que chega me assustou, de primeira, pela frase inicial: #41, Dave Matthews Band.
Impossível não achar que é por as coisas estarem tão no chão.
Eu no chão. Pelo chão. Como a personagem.
Uma personagem.
Um encontro.
Uma música.
Um alívio.
[Descobri!]
Não sei se foi mais de uma, mas de pelo menos uma eu lembro. A corrente era dela, eu atrás de desatar o nó e, junto com seu sorriso de quando tava ensinando algo bacana, ela me disse: joga no chão que solta.
Quantos meses? Quantos? Num faço idéia.
Uma, duas, três, zil vezes o dedinho no play.
Uma frase e outra, fragmentos.
Aspas, diferentes escritas, n tentativas.
Nada de São Google me dar cabimento.
Daí que hoje foi.
Fácil que chega me assustou, de primeira, pela frase inicial: #41, Dave Matthews Band.
Impossível não achar que é por as coisas estarem tão no chão.
Eu no chão. Pelo chão. Como a personagem.
Uma personagem.
Um encontro.
Uma música.
Um alívio.
[Descobri!]
Duas mordidas e eis que sinto no corpo que ele é meu.
Assim foi no banho, pausado, pensado, demorado.
Assim é nas fotos.
E diante de espelhos.
Apenas porque,
jogada na cama, desaguando calores e saudades,
diante de certas memórias, vem a velha dúvida:
isso foi mesmo comigo?
isso lá sou eu?
Uso muito a 3a pessoa. Falo dela.
Daí, né, como não duvidar?
Como fundir uma na outra?
[Desrealização - 22fev09]
Assim foi no banho, pausado, pensado, demorado.
Assim é nas fotos.
E diante de espelhos.
Apenas porque,
jogada na cama, desaguando calores e saudades,
diante de certas memórias, vem a velha dúvida:
isso foi mesmo comigo?
isso lá sou eu?
Uso muito a 3a pessoa. Falo dela.
Daí, né, como não duvidar?
Como fundir uma na outra?
[Desrealização - 22fev09]
Dividirei com você a direção do fusca.
Isso me faz lembrar que preciso tirar carteira...
E estudar espanhol, arranjar passaporte, uns cachecóis e um mochilão. Um tênis novo, uma chinela de couro e uma Melissa vermelha. Ah, e mais meias.
Preciso também de uma máquina fotográfica, um mp3 e uns fones bacanas. Tomara que por lá se ache fácil barras de cereais, tenho medo disso de comida. Será que suco é caro? Bogotá terá mesmo cheiro de goiaba?
Já terei passado por dois recitais.
E talvez você voe de novo logo depois da chegada. Talvez eu num tenha mais emprego e vá para o cerrado. Talvez nada disso dê certo.
Mas é lindo imaginar, inda mais que eu super acho digno. Inda mais indignada como tô hoje. Simplesmente porque te amo.
[com.ti.go]
Isso me faz lembrar que preciso tirar carteira...
E estudar espanhol, arranjar passaporte, uns cachecóis e um mochilão. Um tênis novo, uma chinela de couro e uma Melissa vermelha. Ah, e mais meias.
Preciso também de uma máquina fotográfica, um mp3 e uns fones bacanas. Tomara que por lá se ache fácil barras de cereais, tenho medo disso de comida. Será que suco é caro? Bogotá terá mesmo cheiro de goiaba?
Já terei passado por dois recitais.
E talvez você voe de novo logo depois da chegada. Talvez eu num tenha mais emprego e vá para o cerrado. Talvez nada disso dê certo.
Mas é lindo imaginar, inda mais que eu super acho digno. Inda mais indignada como tô hoje. Simplesmente porque te amo.
[com.ti.go]
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Precoce.
Tardia.
Mansa.
Conflituosa.
De doces.
De salgados.
De muitos.
De poucos.
Musical.
Musicista.
Teatral.
Dançarina.
Comediante.
Dramática.
Parcimoniosa.
Drástica.
Noturnas, noturnas...
Amantes do sol, devotas da lua, coloridas de flores, regadas pela chuva, atentas às formas, livres de fôrmas, donas das letras, voadoras borboletas.
[Más sabrosas]
Tardia.
Mansa.
Conflituosa.
De doces.
De salgados.
De muitos.
De poucos.
Musical.
Musicista.
Teatral.
Dançarina.
Comediante.
Dramática.
Parcimoniosa.
Drástica.
Noturnas, noturnas...
Amantes do sol, devotas da lua, coloridas de flores, regadas pela chuva, atentas às formas, livres de fôrmas, donas das letras, voadoras borboletas.
[Más sabrosas]
Lá, naquele tempo da paciência, ela poderá publicar "O livro das epifanias de mim". Talvez numeradas de trás para frente, como ela lê as coisas, levando de volta ao quando a devastação renovadora começou.
Então, pode ser que o divino se materialize, naquele conjunto de registros do cotidiano, em que cabe uma enorme diversidade. E, pode ser que isso responda o que faz dali o tempo da paciência.
E ele assim possa ser mesmo.
Espero estar lá.
[Previsão do tempo]
Então, pode ser que o divino se materialize, naquele conjunto de registros do cotidiano, em que cabe uma enorme diversidade. E, pode ser que isso responda o que faz dali o tempo da paciência.
E ele assim possa ser mesmo.
Espero estar lá.
[Previsão do tempo]
Olhar nos olhos e ser simplesmente curiosa: você tá esperando qual?
Dois, três gracejos, riso à vontade com dentes pagos, mãos nos joelhos, unhas bem feitas, harmonia nos tons. Já com os pés nos degraus, pausa para um aceno e um sorriso. Foi-se e fiquei eu, marejados olhos, sentindo que é por essas que vale. É por essas que vale.
[velhasimpatia]
Dois, três gracejos, riso à vontade com dentes pagos, mãos nos joelhos, unhas bem feitas, harmonia nos tons. Já com os pés nos degraus, pausa para um aceno e um sorriso. Foi-se e fiquei eu, marejados olhos, sentindo que é por essas que vale. É por essas que vale.
[velhasimpatia]
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Nós precisamos de mais vestidos.
E de caminhadas ou corridas.
E de voltas ou de idas.
E de saias coloridas.
Precisamos de mais sorvete
e da lua
e do mar.
Precisamos de mais árvores - você já viu um baobá? -, de mais flores, de novos amores, de calma pra plantar.
Precisamos de mais disciplina, de mais adrenalina, de livrar das toxinas e de um fusca amarelo-pintinho.
Precisamos de dar tempo ao tempo, de conseguir assistí-lo passar, de não deixá-lo nos assustar, nem marcar como ferro em brasa.
Precisamos buscar mais músicas, gastar as folhas dos cadernos, as pontas dos lápis de cor e o conteúdo das sombras.
Precisamos não tentar precisar o que é vago,
achar um conforto,
um jeito,
um tom.
Precisamos daquilo de bom que já temos,
regado com tudo o que de melhor podemos,
podando toda e qualquer daninha.
Precisamos do sol e da chuva, de riso de criança e de borboletas.
Precisamos acreditar no lá que quem pouco vê, já viu.
Precisamos de outras personagens, para cada dia, ao cair da tarde, aquela luz pintar o sonho que a gente inventou.
[Em par, entre ímpares]
E de caminhadas ou corridas.
E de voltas ou de idas.
E de saias coloridas.
Precisamos de mais sorvete
e da lua
e do mar.
Precisamos de mais árvores - você já viu um baobá? -, de mais flores, de novos amores, de calma pra plantar.
Precisamos de mais disciplina, de mais adrenalina, de livrar das toxinas e de um fusca amarelo-pintinho.
Precisamos de dar tempo ao tempo, de conseguir assistí-lo passar, de não deixá-lo nos assustar, nem marcar como ferro em brasa.
Precisamos buscar mais músicas, gastar as folhas dos cadernos, as pontas dos lápis de cor e o conteúdo das sombras.
Precisamos não tentar precisar o que é vago,
achar um conforto,
um jeito,
um tom.
Precisamos daquilo de bom que já temos,
regado com tudo o que de melhor podemos,
podando toda e qualquer daninha.
Precisamos do sol e da chuva, de riso de criança e de borboletas.
Precisamos acreditar no lá que quem pouco vê, já viu.
Precisamos de outras personagens, para cada dia, ao cair da tarde, aquela luz pintar o sonho que a gente inventou.
[Em par, entre ímpares]
Eu não quero menos. Não quero.
Sem saber, continuaram os mimos de infância, me deram do bom e do melhor.
Resultado: só quero se for dali pra lá.
Assim sendo, que feche.
Que finde essa história de tanto, apesar de tão pouco. Há mais à espera, bem aqui: cinema em meio de semana, passeios no rio com pôr-do-sol, conferências marcantes, lisonjeios e elogios aos dotes, instigantes projetos.
Que feche.
E o mais se abra.
[16fev09, saber acabado]
Sem saber, continuaram os mimos de infância, me deram do bom e do melhor.
Resultado: só quero se for dali pra lá.
Assim sendo, que feche.
Que finde essa história de tanto, apesar de tão pouco. Há mais à espera, bem aqui: cinema em meio de semana, passeios no rio com pôr-do-sol, conferências marcantes, lisonjeios e elogios aos dotes, instigantes projetos.
Que feche.
E o mais se abra.
[16fev09, saber acabado]
Uma girafa hipocondríaca, que se acha padecendo de platônico enamoramento por uma flor.
Essa flor, submissamente contorcionista, sempre à merce do quão torta lhe deixem, com um sorriso simpático, típica acrobata do circo Firuliche.
Um rato gordo, de pijama de listras e orelhas baixas, olhar lânguido e sorriso carente, vitimizando-se pelo que ele não soube conquistar.
Um javali epiléptico: se puxado à vida, ele se treme, treme, treme, treme...
Essas são as pelúcias de minha casa.
Normalidade?!
Pedir demais!
[16fev09, depois do furos]
Essa flor, submissamente contorcionista, sempre à merce do quão torta lhe deixem, com um sorriso simpático, típica acrobata do circo Firuliche.
Um rato gordo, de pijama de listras e orelhas baixas, olhar lânguido e sorriso carente, vitimizando-se pelo que ele não soube conquistar.
Um javali epiléptico: se puxado à vida, ele se treme, treme, treme, treme...
Essas são as pelúcias de minha casa.
Normalidade?!
Pedir demais!
[16fev09, depois do furos]
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Eu tenho uma entidade. Juntas, fazemos par com outra.
A compreensão de mim está muito ao Léo, bem como minha paz se acha nos a.braços de uma rainha do a.mar. Mesmo eu sendo dama de águas doces.
Prefiro os sabores ácidos e amargos. Chocolate já nem tanto acompanha. Estudo um instrumento de cordas que me fez cortar as unhas e amar calos, achando um jeito de entre suavidade, precisão e força.
Convenci um de que sou chata, mas ele sentiria falta, só pelo feminino presente. Justo eu, que muito macho faço até cimento.
Para outra, que me soa saborosas familiaridades, sôo João e Maria.
Benção.
Me esparramei nos depoimentos de uma flor-menina, que nem o carinho-cuidado que resguardo se esparramou nos chiliques dela.
Convergindo mals gostos, saboreei nas madrugadas a conquista de um amor de porcaria, que me deu mais fôlego para acontecer do que sabe.
Tenho um filho fantástico, preciso, assertivo, minucioso, delicado, sagaz. Assim como a pequena que subiu comigo lá onde tinha jeito de infância ao descer.
E quero o conforto daquela que se recolhe e só.
Não vou embora agora.
E talvez tenha mentido pro chefe: acho que ainda quero ser gente grande.
Desde que com calma.
[Palavrórios devanêicos]
A compreensão de mim está muito ao Léo, bem como minha paz se acha nos a.braços de uma rainha do a.mar. Mesmo eu sendo dama de águas doces.
Prefiro os sabores ácidos e amargos. Chocolate já nem tanto acompanha. Estudo um instrumento de cordas que me fez cortar as unhas e amar calos, achando um jeito de entre suavidade, precisão e força.
Convenci um de que sou chata, mas ele sentiria falta, só pelo feminino presente. Justo eu, que muito macho faço até cimento.
Para outra, que me soa saborosas familiaridades, sôo João e Maria.
Benção.
Me esparramei nos depoimentos de uma flor-menina, que nem o carinho-cuidado que resguardo se esparramou nos chiliques dela.
Convergindo mals gostos, saboreei nas madrugadas a conquista de um amor de porcaria, que me deu mais fôlego para acontecer do que sabe.
Tenho um filho fantástico, preciso, assertivo, minucioso, delicado, sagaz. Assim como a pequena que subiu comigo lá onde tinha jeito de infância ao descer.
E quero o conforto daquela que se recolhe e só.
Não vou embora agora.
E talvez tenha mentido pro chefe: acho que ainda quero ser gente grande.
Desde que com calma.
[Palavrórios devanêicos]
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Foi numa noite de lua cheia e socialismo, ao som do mar.
Aquela tanta empolgação,
aquela toda realização,
o encontro com as coisas como elas são,
o cotidiano visto nos olhares e palavras
trocados diretamente.
Uma entrega inusitada ainda que óbvia, a estréia tardia de algo bem conhecido, o direito à incoerência, o aliviar de um afã,
uma troca de sinceridades.
Deu-se, então, uma emergência.
Revigorada, surgiu diante de si
plácida,
disposta a armar-se para a guerra, sentindo as pequenas potências.
Reencontrou-se.
Desde então, anda a cantar e dançar bobagens, a celebrar a loucura, a elaborar miúdos planos, medidos pelos pés e passos,
mãos e sonhos
de vendaval.
Aquela tanta empolgação,
aquela toda realização,
o encontro com as coisas como elas são,
o cotidiano visto nos olhares e palavras
trocados diretamente.
Uma entrega inusitada ainda que óbvia, a estréia tardia de algo bem conhecido, o direito à incoerência, o aliviar de um afã,
uma troca de sinceridades.
Deu-se, então, uma emergência.
Revigorada, surgiu diante de si
plácida,
disposta a armar-se para a guerra, sentindo as pequenas potências.
Reencontrou-se.
Desde então, anda a cantar e dançar bobagens, a celebrar a loucura, a elaborar miúdos planos, medidos pelos pés e passos,
mãos e sonhos
de vendaval.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Ligou quando quis.
Pediu o que confiava ouvir, contou o que podia falar, sabia que ali era casa.
E no desabafo fez descobrir mais presente do que jamais suporia. Mas sentia.
Daí que não me importam todas as profecias, todas as certezas pra muitos estabelecidas. Ando apegada à minha arrogância, disposta a teimosias, a boas brigas. É outra, a relação é outra.
Por isso atendi.
Por isso nos ligamos.
Por isso, amo.
Pediu o que confiava ouvir, contou o que podia falar, sabia que ali era casa.
E no desabafo fez descobrir mais presente do que jamais suporia. Mas sentia.
Daí que não me importam todas as profecias, todas as certezas pra muitos estabelecidas. Ando apegada à minha arrogância, disposta a teimosias, a boas brigas. É outra, a relação é outra.
Por isso atendi.
Por isso nos ligamos.
Por isso, amo.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
À minha mãe, Guiomar.

Jamais poderei ouvir Roberto Carlos sem pensar em você. Se ele tiver cantando os caracóis tão seus, tão nossos, o choro será também inevitável. Fiquei chata, muitíssimo, amarguei cedo. Isso muitas vezes me faz agoniar com seu ritmo, seu jeito, horas tão diferentes dos meus, hora tão parecidos. Mas nada diz de aconchego como a lembrança de deitar com a cabeça nas suas costas, debaixo do cobertor Paraíba marrom. Nada diz de verdades do mundo como a lembrança do teu choro das dores tantas e do teu riso das bobagens simples.
Você teria voado além do sonho, se tivessem te dado asas formais. Você coloriu e cantou e pôs muita delicadeza em muitas vidas, em muitas gerações. Você me mostrou a coragem banal que é necessária para partir, atrás do desconhecido que atrai mais que o esperado. Você tem a força vigorosa das mulheres mitológicas do rio caudaloso, guerreiras furiosas, loucas de vida, como ouso carregar nos meus olhos e ombros.
Você me pariu com música e aí eu fiquei assim, cadenciada, sonora, expandindo-me onde houver ar. E eu jamais poderei agradecer o suficiente. Abri mão das unhas fortes que sempre foram a tua vaidade para fazer música, um muito na esperança de fazer soar beleza no mundo como você tem feito, nesses sessenta e seis anos.
Espero ser para ti apenas isso: parte bem semeada da jardinagem que compões todo dia.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
the lights go on
the lights go off
when things don't feel right
i lie down like a tired dog
licking his wounds in the shade
when i feel alive
i try to immagine a careless life
a scenic world where the sunsets are all
breathtaking
[Beirut, Scenic World]
___________________________________________
Quisera eu me pôr de modo a perder o fôlego e, assim, vazia de ar, esvaziar-me de mim. E descansar...
the lights go off
when things don't feel right
i lie down like a tired dog
licking his wounds in the shade
when i feel alive
i try to immagine a careless life
a scenic world where the sunsets are all
breathtaking
[Beirut, Scenic World]
___________________________________________
Quisera eu me pôr de modo a perder o fôlego e, assim, vazia de ar, esvaziar-me de mim. E descansar...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Mafalda diz:
BsB é mais perto da Venezuela. Seus irmãos são divertidos. Nossa luz está mesmo nos olhos da IsaBela. Porque não ir? Se nada der certo, a Isolda Gunther ainda está por lá, na mesma UnB que deve ter escola de música. Poderia até conviver com a loucura de uma paixão e não enlouquecer. O fundo de Seu Cardoso teria um só destino: ponte aérea BsB-Nat.
Mafalda diz:
Para vc vir ou eu ir - passo de novo pela solidão da Bahia nem a pau. Liberdade? Parcela; pode incluir na planilha. Se d. Gui não reclamar mais do que como fez com o fogão companheiro da BeBel, pode ser a tal da moto. Se ela reclamar, vira fusca. Voa. Voa.
___________________________________
Juro que tento ir sem muita dor,
me agarrando à noção de que será
como tem sido com outros:
como se nada mais tivesse acontecido que anoitecer e amanhecer...
BsB é mais perto da Venezuela. Seus irmãos são divertidos. Nossa luz está mesmo nos olhos da IsaBela. Porque não ir? Se nada der certo, a Isolda Gunther ainda está por lá, na mesma UnB que deve ter escola de música. Poderia até conviver com a loucura de uma paixão e não enlouquecer. O fundo de Seu Cardoso teria um só destino: ponte aérea BsB-Nat.
Mafalda diz:
Para vc vir ou eu ir - passo de novo pela solidão da Bahia nem a pau. Liberdade? Parcela; pode incluir na planilha. Se d. Gui não reclamar mais do que como fez com o fogão companheiro da BeBel, pode ser a tal da moto. Se ela reclamar, vira fusca. Voa. Voa.
___________________________________
Juro que tento ir sem muita dor,
me agarrando à noção de que será
como tem sido com outros:
como se nada mais tivesse acontecido que anoitecer e amanhecer...
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Você e suas descobertas.
Você e seus presentes.
Você...
Nós e nossas veias abertas.
Nós e nossas quedas.
Nós e nossos ombros cansados.
Nós e nossos bordados.
Nós e nossos presentes trocados.
Nós e nossos amores truncados.
Nós...
Ainda bem que, ao menos, pode ser assim, no plural.
[para Keyla, em 31jan09. para Candida, em 01fev09]
Você e seus presentes.
Você...
Nós e nossas veias abertas.
Nós e nossas quedas.
Nós e nossos ombros cansados.
Nós e nossos bordados.
Nós e nossos presentes trocados.
Nós e nossos amores truncados.
Nós...
Ainda bem que, ao menos, pode ser assim, no plural.
[para Keyla, em 31jan09. para Candida, em 01fev09]
Teria fumado, se embriagado, comido doces, faxinado, vagado na noite sozinha. Mas nada cabia, nada parecia à altura, pois acima daquela primária dor de saudade, tudo era muito diversão e beleza. Foi quando viu o plástico de bolinhas.
Calmamente, pôs os dedos em ação. Plect, plect, plect... A cada bolinha, tantos quantos pensares-dizeres-sentires:
galado.bonito.sacana.sorriso.safado.comp
romisso.descarado.assumido.escorregadio.
cativante.arredio.confiante.indecente.coe
rente.saliente.evasivo.olhar.invasivo.esc
racho.fuga.encontro.cantadas.diálogos.conf
issões.entrega.canções.noites.convites.ab
raços.cabelos.vestidos.elogios.militância.
sorvete.recomeço.rebuliço.revolução.socia
lismo.lua.rua.praia.chamego.desejo.beijo.
dedos.vapores.suores.sabores.riscos.recei
os.desenho.afagos.formas.outras.tantas.vi
ndas.ida.voltas.curvas.ancas.lágrimas.inq
uietas.pernas.lembranças.alento.fidaputa.
momentos.único.
Assim, como a mais dedicada das carolas ao rezar um terço, foi dando cabo das bolinhas, carpindo a partida do homem. Achou outros pedaços de plástico e concluiu que talvez precisasse de alguns metros. Riu sozinha, imaginado-se mergulhada num mar de plástico de bolinhas.
Riu?
Riu.
O choro não era dele, nem tinha sido com ela. Juntos, tinham sido diversão e beleza. Então, agora sim, fez jus.
Calmamente, pôs os dedos em ação. Plect, plect, plect... A cada bolinha, tantos quantos pensares-dizeres-sentires:
galado.bonito.sacana.sorriso.safado.comp
romisso.descarado.assumido.escorregadio.
cativante.arredio.confiante.indecente.coe
rente.saliente.evasivo.olhar.invasivo.esc
racho.fuga.encontro.cantadas.diálogos.conf
issões.entrega.canções.noites.convites.ab
raços.cabelos.vestidos.elogios.militância.
sorvete.recomeço.rebuliço.revolução.socia
lismo.lua.rua.praia.chamego.desejo.beijo.
dedos.vapores.suores.sabores.riscos.recei
os.desenho.afagos.formas.outras.tantas.vi
ndas.ida.voltas.curvas.ancas.lágrimas.inq
uietas.pernas.lembranças.alento.fidaputa.
momentos.único.
Assim, como a mais dedicada das carolas ao rezar um terço, foi dando cabo das bolinhas, carpindo a partida do homem. Achou outros pedaços de plástico e concluiu que talvez precisasse de alguns metros. Riu sozinha, imaginado-se mergulhada num mar de plástico de bolinhas.
Riu?
Riu.
O choro não era dele, nem tinha sido com ela. Juntos, tinham sido diversão e beleza. Então, agora sim, fez jus.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
No calor do impulso, não havia espaço para a dúvida, era pra ser uma interrogação. Mas, por obra de mavioso acaso, eis que foi um ponto.
Ao vê-lo, senti a deixa.
Há muito, o esforço é de me pôr limites. Forte, resiliente, ousada? Sim. Mas nem por isso é preciso suportar. Algo em mim diz: basta. Aí, ela me mostra a música e eu concluo - esse ainda não é o tempo da delicadeza. Então, assumo a possibilidade da dúvida e me concedo a negativa.
Por mim, por ti, pelo amor,
sinto que a hora é de sustentar o não.
De deixar para depois, para outro momento, de expôr-me ao risco do arrependimento, de privar-te do desprazer do encontro com o que de buliçoso tens apenas por existir.
O prazer sempre foi enormemente intenso, só que já não supre, não compensa, tão fulgás... Deseje comigo que eu consiga e entrega também ao acaso.
Sente o amor que eu te mando no vento.
Se cuida.
Voa.
Ao vê-lo, senti a deixa.
Há muito, o esforço é de me pôr limites. Forte, resiliente, ousada? Sim. Mas nem por isso é preciso suportar. Algo em mim diz: basta. Aí, ela me mostra a música e eu concluo - esse ainda não é o tempo da delicadeza. Então, assumo a possibilidade da dúvida e me concedo a negativa.
Por mim, por ti, pelo amor,
sinto que a hora é de sustentar o não.
De deixar para depois, para outro momento, de expôr-me ao risco do arrependimento, de privar-te do desprazer do encontro com o que de buliçoso tens apenas por existir.
O prazer sempre foi enormemente intenso, só que já não supre, não compensa, tão fulgás... Deseje comigo que eu consiga e entrega também ao acaso.
Sente o amor que eu te mando no vento.
Se cuida.
Voa.
Revolta
Alma que sofres pavorosamente
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sê contente
Antes que o horror da solidão te invada
Deixa que a vida te possua ardente
Ó alma supremamente desgraçada.
Abandona, águia, a inóspita morada
Vem rastejar no chão como a serpente.
De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.
Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.
[Vinicius de Moraes]
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sê contente
Antes que o horror da solidão te invada
Deixa que a vida te possua ardente
Ó alma supremamente desgraçada.
Abandona, águia, a inóspita morada
Vem rastejar no chão como a serpente.
De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.
Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.
[Vinicius de Moraes]
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
A acrobata
Luz Marina Acosta era menininha quando descobriu o circo Firuliche.
O circo Firuliche emergiu certa noite, mágico barco de luzes, das profundidades do Lago da Nicarágua. Eram clarins guerreiros as cornetas de papelão dos palhaços e bandeiras altas os farrapos que ondeavam anunciando a maior festa do mundo. A lona estava toda cheia de remendos, e também os leões, aposentados leões; mas a lona era um castelo e os leões, os reis da selva. E uma senhora rechonchuda, brilhante de lantejoulas, era a rainha dos céus, balançando nos trapézios a um metro do chão.
Então, Luz Marina decidiu tornar-se acrobata. E saltou de verdade, lá do alto, e em sua primeira acrobacia, aos seis anos de idade, quebrou as costelas.
E assim foi, depois, a vida. Na guerra, longa guerra contra a ditadura de Somoza, e nos amores: sempre voando, sempre quebrando as costelas.
Porque quem entra no circo Firuliche não sai jamais.
[Eduardo Galeano, em Mujeres]
O circo Firuliche emergiu certa noite, mágico barco de luzes, das profundidades do Lago da Nicarágua. Eram clarins guerreiros as cornetas de papelão dos palhaços e bandeiras altas os farrapos que ondeavam anunciando a maior festa do mundo. A lona estava toda cheia de remendos, e também os leões, aposentados leões; mas a lona era um castelo e os leões, os reis da selva. E uma senhora rechonchuda, brilhante de lantejoulas, era a rainha dos céus, balançando nos trapézios a um metro do chão.
Então, Luz Marina decidiu tornar-se acrobata. E saltou de verdade, lá do alto, e em sua primeira acrobacia, aos seis anos de idade, quebrou as costelas.
E assim foi, depois, a vida. Na guerra, longa guerra contra a ditadura de Somoza, e nos amores: sempre voando, sempre quebrando as costelas.
Porque quem entra no circo Firuliche não sai jamais.
[Eduardo Galeano, em Mujeres]
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Tem muito mais verde nas conversas salvas. Nelas, quem fala muito sou eu. Relendo-as, (re)encontro nas tuas poucas palavras precisos toques em mim, mais ou menos assim, entre as juntas dos dedos.
Ali, registradas, elas continuam me cutucando.
Sinto falta de olhar nos olhos.
E de te ouvir, de novo vendo as pernas tomarem um certo sossego.
Elas merecem. Mais ou menos assim como eu mereci te descobrir de verdade (se é que isso realmente aconteceu).
Me causa estranheza essa forma de contato. E, diante dos porvires, ela será a única possível. Lamento.
Juro como merecíamos mais.
Vaidade: juro como queria mais.
Mais uma dose do melhor veneno antimonotonia...
Ali, registradas, elas continuam me cutucando.
Sinto falta de olhar nos olhos.
E de te ouvir, de novo vendo as pernas tomarem um certo sossego.
Elas merecem. Mais ou menos assim como eu mereci te descobrir de verdade (se é que isso realmente aconteceu).
Me causa estranheza essa forma de contato. E, diante dos porvires, ela será a única possível. Lamento.
Juro como merecíamos mais.
Vaidade: juro como queria mais.
Mais uma dose do melhor veneno antimonotonia...
Textos, textos, textos.
Me trazendo o quê mesmo que me agrada no teatro, o que falta na música, o que não ficou óbvio no poeta, o que não sei de um monte de coisa, o que é importante em um monte de coisa que já sei, mas quase esqueci.
As letras aparecendo na tela me remetem ao filme, que me remete à realidade, que me remete à fantasia.
Falta um mês pro carnaval. Ainda não é tempo das fantasias que compensam. Então, o que fazer com essas que insistem em profanar a rotina?
Me trazendo o quê mesmo que me agrada no teatro, o que falta na música, o que não ficou óbvio no poeta, o que não sei de um monte de coisa, o que é importante em um monte de coisa que já sei, mas quase esqueci.
As letras aparecendo na tela me remetem ao filme, que me remete à realidade, que me remete à fantasia.
Falta um mês pro carnaval. Ainda não é tempo das fantasias que compensam. Então, o que fazer com essas que insistem em profanar a rotina?
domingo, 18 de janeiro de 2009
Domingos
Num, fim de luz de fim de tarde, e a mesma praça se mostra outra. Me encontro outra, ao sentir outra (leve) saudade.
Noutro, luz branca natural de lua, seguida de luz amarela artificial de ousadia, seguida de luz natural de sol, começando o dia. Quem diria...
Nesse, luz de meio-dia, aquecendo palavras de entrega inteira, dando outro tom à pele que, mais tarde, vê a luz de fim de tarde, em cores outras. Me sinto outra, ao encontrar a mesma (densa) saudade.
Noutro, luz branca natural de lua, seguida de luz amarela artificial de ousadia, seguida de luz natural de sol, começando o dia. Quem diria...
Nesse, luz de meio-dia, aquecendo palavras de entrega inteira, dando outro tom à pele que, mais tarde, vê a luz de fim de tarde, em cores outras. Me sinto outra, ao encontrar a mesma (densa) saudade.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Pelo sorriso exclusivo, à meia-luz.
Pelo que de bicho requer respeito.
Pelo compromisso que assumi comigo.
Pelo lugar outro que assumiu.
Pelo tanto que quero mesmo isso.
Pela liberdade de poder.
Pelo bem que faz.
Pelo caos que preciso.
Pela musicalidade do sussuro.
Pelo apreço à lua, à rua, à madrugada.
Pelo que surpreende.
Pelo que há de lícito em desejar.
Pelo valor da entrega.
Pela confiança.
Pelo apreço em saber par.
Pelo carinho.
Acima de tudo, por ter sido.
Pelo que de bicho requer respeito.
Pelo compromisso que assumi comigo.
Pelo lugar outro que assumiu.
Pelo tanto que quero mesmo isso.
Pela liberdade de poder.
Pelo bem que faz.
Pelo caos que preciso.
Pela musicalidade do sussuro.
Pelo apreço à lua, à rua, à madrugada.
Pelo que surpreende.
Pelo que há de lícito em desejar.
Pelo valor da entrega.
Pela confiança.
Pelo apreço em saber par.
Pelo carinho.
Acima de tudo, por ter sido.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Texto de Sagitário
Apaixonado pela ninfa Filira, Saturno ia visitá-la todas as noites sob a forma de um centauro.
Mais tarde, quando Filira deu à luz um ser metade homem e metade animal, ela ficou tão horrorizada que implorou aos deuses que a cegassem, que a fizessem louca para que ela nunca visse aquele horrendo ser que havia gerado.
E Filira morreu sem saber que havia dado à luz o centauro Quiron, a mais sábia de todas as criaturas da floresta.
Um dia, por engano, Hércules acertou em Quiron uma de suas flechas embebidas no sangue venenoso da hidra de Lerna. Quiron não podia morrer, porque era filho de um deus. Mas as dores que o torturava eram tantas, eram tão fortes, que a mulher que amava Quiron implorou aos deuses que o libertassem daquela imensa agonia.
E os deuses concederam. E Quiron foi vitrificado sem dor e visível pra sempre, na bela constelação de Sagitário.
Oswaldo Montenegro
Apaixonado pela ninfa Filira, Saturno ia visitá-la todas as noites sob a forma de um centauro.
Mais tarde, quando Filira deu à luz um ser metade homem e metade animal, ela ficou tão horrorizada que implorou aos deuses que a cegassem, que a fizessem louca para que ela nunca visse aquele horrendo ser que havia gerado.
E Filira morreu sem saber que havia dado à luz o centauro Quiron, a mais sábia de todas as criaturas da floresta.
Um dia, por engano, Hércules acertou em Quiron uma de suas flechas embebidas no sangue venenoso da hidra de Lerna. Quiron não podia morrer, porque era filho de um deus. Mas as dores que o torturava eram tantas, eram tão fortes, que a mulher que amava Quiron implorou aos deuses que o libertassem daquela imensa agonia.
E os deuses concederam. E Quiron foi vitrificado sem dor e visível pra sempre, na bela constelação de Sagitário.
Oswaldo Montenegro
sábado, 27 de dezembro de 2008
Quanto sorvete pode caber dentro de uma mulher?
Tanto quanto ela precise para aproveitar a oportunidade.
Quantas palavras podem ser trocadas entre duas mulheres?
Tantas quantas elas precisem para aproveitar a oportunidade, de tal modo que inúmeras conversas possam ser começadas e paradas e continuadas e, enfim...
Quanto comum-de-dois podem ser as histórias amorosas de duas mulheres?
Tanto quanto seja necessário para que elas se sintam menos sós diante dessas histórias e seus efeitos.
Quantos homens podem habitar os corações de duas mulheres?
Tantos quantos ali cheguem, conquistem, invadam, remexam, encantem, revirem, incomodem, e, enfim...
Graças ao esquema de cotas, basta sacudir um pouquinho e abre-se o tanto das sobremesas. Se não estivéssemos na América Latina, com sua realidade fantástica, haveria quem se horrorizasse com a capacidade daquelas mulheres de consumir sorvetes. E trocar palavras, experimentar semelhanças e sobreviverem ao atravessamento de certos homens.
Mas, aqui, elas são apenas duas mulheres.
Tanto quanto ela precise para aproveitar a oportunidade.
Quantas palavras podem ser trocadas entre duas mulheres?
Tantas quantas elas precisem para aproveitar a oportunidade, de tal modo que inúmeras conversas possam ser começadas e paradas e continuadas e, enfim...
Quanto comum-de-dois podem ser as histórias amorosas de duas mulheres?
Tanto quanto seja necessário para que elas se sintam menos sós diante dessas histórias e seus efeitos.
Quantos homens podem habitar os corações de duas mulheres?
Tantos quantos ali cheguem, conquistem, invadam, remexam, encantem, revirem, incomodem, e, enfim...
Graças ao esquema de cotas, basta sacudir um pouquinho e abre-se o tanto das sobremesas. Se não estivéssemos na América Latina, com sua realidade fantástica, haveria quem se horrorizasse com a capacidade daquelas mulheres de consumir sorvetes. E trocar palavras, experimentar semelhanças e sobreviverem ao atravessamento de certos homens.
Mas, aqui, elas são apenas duas mulheres.
Entre tantas coisas inimagináveis, senti frio em Mossoró.
Vento, muito vento.
Tenho três testemunhas de que um vira-lata robusto andou cadenciadamente por mais de dez metros na madrugada, dando uma volta em torno do próprio eixo, em sentido horário, a cada quatro passos. Alucinação coletiva? Que seja. Melhor do que loucura bem acompanhada só mesmo um cachorro performático bailando na madrugada...
Vento, muito vento.
Tenho três testemunhas de que um vira-lata robusto andou cadenciadamente por mais de dez metros na madrugada, dando uma volta em torno do próprio eixo, em sentido horário, a cada quatro passos. Alucinação coletiva? Que seja. Melhor do que loucura bem acompanhada só mesmo um cachorro performático bailando na madrugada...
Quem diria que um cigarro fumado ansiosamente sob uma garoa fina em começo de madrugada poderia pôr fim a dias de garganta inflamada? Somente quem entendesse que pode-se queimar mais num cigarro do que fumo e papel. E que garganta inflamada pode ter tudo a ver com o mais que se pode queimar num cigarro.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Licença-prêmio para um coração funcionário público
Não fora aprovado em concurso, mas tinha plano de carreira, estabilidade, remuneração fixa, gratificação por funções extras, cartão de ponto, fim de ano com confraternização sem laços fraternos, lista de amigo secreto e, se brincasse, até I will survive no fim da festa. Resolvi, então, dar-lhe uma licença-prêmio. Afinal, quase trinta anos de casa... sem falar que os últimos cinco haviam sido profundamente atribulados. Mas a idade pesa, memória e atenção uma bosta, e sempre fui ruim de contas, nem notei que já haviam passado seis meses. Daí que ele voltou ao trabalho, revigorado e cheio de disposição, com gosto e gás, como se diz. Mas num acompanho seu pique, ando cansada. Janis Joplin e Cazuza confortam, bom ter almas vagando num limbo quase imbecil como o meu. Mas eu canto mal pra caralho, não toco nenhum instrumento nem tenho genialidade poética. Durmo o cansaço de quem tem um coração funcionário público. Um velho e comprometido funcionário público que, se destituído da função, chega a perder a noção de si, preferindo um infarto à aposentadoria. Nada pior do que hábitos arraigados. Ainda mais quando envolve muito prazer...
[12nov07]
__________________________________________________
Algumas atualizações:
- Quase trinta mesmo. U-hu.
- Fiona Apple conforta muitíssimo bem, também.
- Descobri que canto menos mal do que pensava.
- Estou aprendendo a tocar um instrumento. Lânguido como convém.
- Nem há tanto prazer assim...
- Mais de um ano depois: que merda, hein, essa mesmice?
[12nov07]
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Algumas atualizações:
- Quase trinta mesmo. U-hu.
- Fiona Apple conforta muitíssimo bem, também.
- Descobri que canto menos mal do que pensava.
- Estou aprendendo a tocar um instrumento. Lânguido como convém.
- Nem há tanto prazer assim...
- Mais de um ano depois: que merda, hein, essa mesmice?
As ilusões perdidas
Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí, esse ar entre aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês já não repararam que nenhum deles fuma sorrindo?
[Mario Quintana, Da preguiça como método de trabalho]
_____________________________________________________
Sim, eu gostaria de cigarrilhas.
À beira-mar, à noite, usando casaco e calçando All Star, fones no ouvido, Fiona Apple cantando Paper bag e a fumaça agravando o embaçado da maresia nos meus óculos. Na impossibilidade, fica justificada a falta do sorriso.
Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí, esse ar entre aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês já não repararam que nenhum deles fuma sorrindo?
[Mario Quintana, Da preguiça como método de trabalho]
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Sim, eu gostaria de cigarrilhas.
À beira-mar, à noite, usando casaco e calçando All Star, fones no ouvido, Fiona Apple cantando Paper bag e a fumaça agravando o embaçado da maresia nos meus óculos. Na impossibilidade, fica justificada a falta do sorriso.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Fiz contas. Em onze dias, serão cinco meses.
De volta, ao pé do ouvido, num murmúrio: eu também. Um pouco mais leve, eu teria feito a pilhéria (adorei ela resgatar essa palavra)
- Que bom, é importante o amor próprio.
Mas isso me remete a mim mesma e aí as coisas tomariam ares mais densos. Desde então, tento me acostumar.
Às vezes consigo. Pra ajudar, criei uma fantasia baseada em fatos reais.
- Você, se esconder (risos)? Faz tempo que ela me disse que não posso passar despercebida.
Mas juro que foi isso que eu quis. Não consegui.
Alguma hora, segura à frente da tela plana que não reage ao meu baixar de olhos, vou perguntar o porquê. Dessa vez importa, pois era alguém totalmente livre de mim.
Era.
Já entreguei um monte. Discordamos do que seja amor e romantismo. Queremos o que não depende de nós ter. Temos a música, a timidez e muitos cachos. O que mais, é devir.
Antes disso, quererei saber o porquê. O quê. Talvez pergunte também sobre intenções, já que habita aqui alguém a quem apraz despertar desejos mundanos em quem lhe faz essa sutil gentileza. Visgos de possibilidade de convergência, mesmo que já abandonadas. Sim, já abandonadas. Boas fantasias são as carnavalescas.
Para o cotidiano, prefiro o realismo sobrenatural em letras impressas. Na cama, seis diferentes homens me provêm. Degustando-os, penso que poderiam escrever de nós, caso já não o tivessem feito por si mesmos. Assim, aguardo a profecia que lho anunciei: vai passar.
De volta, ao pé do ouvido, num murmúrio: eu também. Um pouco mais leve, eu teria feito a pilhéria (adorei ela resgatar essa palavra)
- Que bom, é importante o amor próprio.
Mas isso me remete a mim mesma e aí as coisas tomariam ares mais densos. Desde então, tento me acostumar.
Às vezes consigo. Pra ajudar, criei uma fantasia baseada em fatos reais.
- Você, se esconder (risos)? Faz tempo que ela me disse que não posso passar despercebida.
Mas juro que foi isso que eu quis. Não consegui.
Alguma hora, segura à frente da tela plana que não reage ao meu baixar de olhos, vou perguntar o porquê. Dessa vez importa, pois era alguém totalmente livre de mim.
Era.
Já entreguei um monte. Discordamos do que seja amor e romantismo. Queremos o que não depende de nós ter. Temos a música, a timidez e muitos cachos. O que mais, é devir.
Antes disso, quererei saber o porquê. O quê. Talvez pergunte também sobre intenções, já que habita aqui alguém a quem apraz despertar desejos mundanos em quem lhe faz essa sutil gentileza. Visgos de possibilidade de convergência, mesmo que já abandonadas. Sim, já abandonadas. Boas fantasias são as carnavalescas.
Para o cotidiano, prefiro o realismo sobrenatural em letras impressas. Na cama, seis diferentes homens me provêm. Degustando-os, penso que poderiam escrever de nós, caso já não o tivessem feito por si mesmos. Assim, aguardo a profecia que lho anunciei: vai passar.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

em 1920, nascia a Clarice Lispector.
em 1948, A Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
em 1972, nascia a Cássia Eller.
em 1983, no Peru, Cuzco e o santuário inca de Machu Pichu foram declarados bens culturais da humanidade pela Unesco.
em 1996, na África do Sul, Nelson Mandela assinou uma nova Constituição e pôs fim ao regime racista do Apartheid.
em 1998, na Espanha, o juiz Baltasar Garzón processou o general Augusto Pinochet pelos delitos de genocídio, terrorismo e torturas no Chile, ratificando a prisão provisional incondicional do ditador.
tudo isso no mesmo 10 de dezembro em que nasci, há 29 anos.
é, não é uma data qualquer.
gracias a la vida, que me ha dado tanto...
domingo, 7 de dezembro de 2008
De novo, foi ela quem deixou tudo claro.
Límpido, como a água na beira da lagoa.
Talvez seja comprometimento com as gerações futuras.
Afinal, eles precisarão tanto de água como de amor.
x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
Alguns nem viram,
outros não quiseram,
outros não puderam.
Mas já estava, o amor já estava,
posto que ele não tem pressa,
nem graves restrições.
Assim, ele pode esperar,
manso,
por quem que possa vivê-lo,
pleno.
Já,
quando nos seria bom,
ou além,
quando será bom a quem for.
Límpido, como a água na beira da lagoa.
Talvez seja comprometimento com as gerações futuras.
Afinal, eles precisarão tanto de água como de amor.
x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
Alguns nem viram,
outros não quiseram,
outros não puderam.
Mas já estava, o amor já estava,
posto que ele não tem pressa,
nem graves restrições.
Assim, ele pode esperar,
manso,
por quem que possa vivê-lo,
pleno.
Já,
quando nos seria bom,
ou além,
quando será bom a quem for.
sábado, 6 de dezembro de 2008
Eu nem tinha notado.
Para mim, era só a saudade de uma tranquilidade qualquer, de dias serenos porque sim.
Só quando se falou em companhia (de novo, ê nóis: /\) foi que fez sentido.
Eis, então, a questão:
Ressoa em mim
O que nem sentes, pois apenas sois.
Entre sons, descubro o sentido que faz,
na contramão do pensado,
nós dois convergindo.
Ah, se sesse!
Para mim, era só a saudade de uma tranquilidade qualquer, de dias serenos porque sim.
Só quando se falou em companhia (de novo, ê nóis: /\) foi que fez sentido.
Eis, então, a questão:
Ressoa em mim
O que nem sentes, pois apenas sois.
Entre sons, descubro o sentido que faz,
na contramão do pensado,
nós dois convergindo.
Ah, se sesse!
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Eu gosto de chá de gengibre e estampa de bolinhas. Sou tia há quase 25 anos e ainda não completei 30. Tenho mania de organização – adoro fazer listas – e fico tão bem na bagunça que a procuro. Sonho com o dia em que farei meus próprios vestidos e tocarei um instrumento de cordas, preferencialmente um violino ou um contrabaixo. Depois dos 20 anos mudei meu suco favorito – salve o cajá!, cortei meu cabelo sozinha – libertação!, aprendi a cuidar de plantas e a apreciar cachaças, desenhei minhas tatuagens e vaguei sozinha pelas ruas de São Paulo.
Sinto saudades do que ainda não vivi, gostaria de lembrar de mais coisas da minha infância e me desestabilizo pensando no futuro. Quero ir à Irlanda e à Espanha, ao Chile e à África. Não me acostumo com o sol se pondo pouco depois das 17h aqui em Natal, mas gosto dele nascendo pouco depois das 4h. Não sei guardar dinheiro, tenho medo de ter câncer, de ficar cega e de baratas. Deveria ter sido dançarina, mas findei psicóloga, coisa que tento compensar me devotando à pesquisa. Teria sido uma excelente ginasta ou artista de circo, ainda pretendo dançar tango e fazer acrobacias em tecido. Me entendo bem com panelas, papéis e miudezas. Sou boa em composição de cores, em lembrar de letras de músicas e elaborar auto-enganos.
Converso bem com estranhos e nem tanto com conhecidos – intimidade às vezes dispensa palavras, tanto quanto assusta. Pretendo voltar, mas não sei se quero ir. Gostaria de voar, não sei nadar nem andar de bicicleta. Gostaria de ter um filho atleta, um elefante e um carro antigo. Tenho nome pra um cachorro futuro, tiro as teias mas deixo as aranhas (prevenção à dengue) e viro bicho de vez em quando (tormentas ao sabor do ciclo lunar). Me queixo repetitivamente das mesmas tolices, me desmancho por um carinho ou um botão de flor, vivo cheia de mimos e dúvidas, mas algo pra mim é certo: vivo. Tenho um amor de perdição e vários de salvação, projetos mirabolantes e uma vontade imensa de rir.
[29jun08]
Sinto saudades do que ainda não vivi, gostaria de lembrar de mais coisas da minha infância e me desestabilizo pensando no futuro. Quero ir à Irlanda e à Espanha, ao Chile e à África. Não me acostumo com o sol se pondo pouco depois das 17h aqui em Natal, mas gosto dele nascendo pouco depois das 4h. Não sei guardar dinheiro, tenho medo de ter câncer, de ficar cega e de baratas. Deveria ter sido dançarina, mas findei psicóloga, coisa que tento compensar me devotando à pesquisa. Teria sido uma excelente ginasta ou artista de circo, ainda pretendo dançar tango e fazer acrobacias em tecido. Me entendo bem com panelas, papéis e miudezas. Sou boa em composição de cores, em lembrar de letras de músicas e elaborar auto-enganos.
Converso bem com estranhos e nem tanto com conhecidos – intimidade às vezes dispensa palavras, tanto quanto assusta. Pretendo voltar, mas não sei se quero ir. Gostaria de voar, não sei nadar nem andar de bicicleta. Gostaria de ter um filho atleta, um elefante e um carro antigo. Tenho nome pra um cachorro futuro, tiro as teias mas deixo as aranhas (prevenção à dengue) e viro bicho de vez em quando (tormentas ao sabor do ciclo lunar). Me queixo repetitivamente das mesmas tolices, me desmancho por um carinho ou um botão de flor, vivo cheia de mimos e dúvidas, mas algo pra mim é certo: vivo. Tenho um amor de perdição e vários de salvação, projetos mirabolantes e uma vontade imensa de rir.
[29jun08]
domingo, 30 de novembro de 2008
Na fala de uma, pausa.
No limite da outra, recato.
Numa outra, promissores primeiros passos.
Na pequena, a sagacidade objetiva que muito me apraz.
Na entidade, calar e falar bem mesurados.
Sementes? Não.
Flores, belas flores, daquelas que nos fazem sorrir diante de sua leveza, suavidade, singeleza. Enfeitam o jardim de minha vida, onde as cultivo com todo mimo e cuidado, me esforçando por ser digna da presença delas ali.
Jardineira de amigas.
Delícia de atividade.
No limite da outra, recato.
Numa outra, promissores primeiros passos.
Na pequena, a sagacidade objetiva que muito me apraz.
Na entidade, calar e falar bem mesurados.
Sementes? Não.
Flores, belas flores, daquelas que nos fazem sorrir diante de sua leveza, suavidade, singeleza. Enfeitam o jardim de minha vida, onde as cultivo com todo mimo e cuidado, me esforçando por ser digna da presença delas ali.
Jardineira de amigas.
Delícia de atividade.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Adoro me pegar nas minhas tolices.
Mui bobinha. Querendo surpresas impressionantes para sair do tédio que só incomoda os que deixam de valorizar as sutilezas. Aí ele vem e me diz “eu te amo”.
Porque deu vontade de dizer pra quem faz sentido
Para lembrar
Para dizer
E só.
Para quê grandes surpresas, se meu cotidiano é de amor assim?
Tsc, tsc... Eu ainda aprendo, juro que aprendo.
Mui bobinha. Querendo surpresas impressionantes para sair do tédio que só incomoda os que deixam de valorizar as sutilezas. Aí ele vem e me diz “eu te amo”.
Porque deu vontade de dizer pra quem faz sentido
Para lembrar
Para dizer
E só.
Para quê grandes surpresas, se meu cotidiano é de amor assim?
Tsc, tsc... Eu ainda aprendo, juro que aprendo.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Assim diz o Dicionário Houaiss da língua portuguesa:
Entidade s.f. 1 aquilo que constitui a existência de algo real; essência 1.1 essa existência considerada à parte, independentemente dos atributos da coisa 2 p.ext. o ser humano; ente, indivíduo 3 p.ext. tudo o que tem existência, tudo o que existe, na realidade ou na ficção 4 fig. Qualidade excepcional; importância, valor
O algo real: amizade. Acima e além de qualquer tola convenção social. Dois seres humanos, duas mulheres, fêmeas-bicho, sobrevivendo à dureza da realidade à custa de maviosos mergulhos na ficção. O que nos permite viver nossa excepcionalidade. De uma importância infinita e de um valor incomensurável.
Uma entidade.
Gostei.
Amei.
Amo.
Entidade s.f. 1 aquilo que constitui a existência de algo real; essência 1.1 essa existência considerada à parte, independentemente dos atributos da coisa 2 p.ext. o ser humano; ente, indivíduo 3 p.ext. tudo o que tem existência, tudo o que existe, na realidade ou na ficção 4 fig. Qualidade excepcional; importância, valor
O algo real: amizade. Acima e além de qualquer tola convenção social. Dois seres humanos, duas mulheres, fêmeas-bicho, sobrevivendo à dureza da realidade à custa de maviosos mergulhos na ficção. O que nos permite viver nossa excepcionalidade. De uma importância infinita e de um valor incomensurável.
Uma entidade.
Gostei.
Amei.
Amo.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
1986.
Eu já lia. Escrevia também. Minha mãe já era avó, mais de uma vez. Já tínhamos viajado mais de uma vez, cruzando a metade do país que interessa. O Rio não me interessa, mas sim o misto de suavidade e de força de rio que me faz disparar: que beleza de mulher! Num é à toa que ela vem de lá.
Menina ainda? Gracias!
Muito, muito a encantar pela frente, deliciosamente.
Pois é. Questão de sorte.
And so sweet merecimento.
Eu já lia. Escrevia também. Minha mãe já era avó, mais de uma vez. Já tínhamos viajado mais de uma vez, cruzando a metade do país que interessa. O Rio não me interessa, mas sim o misto de suavidade e de força de rio que me faz disparar: que beleza de mulher! Num é à toa que ela vem de lá.
Menina ainda? Gracias!
Muito, muito a encantar pela frente, deliciosamente.
Pois é. Questão de sorte.
And so sweet merecimento.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Algumas pessoas param num tempo. Pelo menos é assim que eu vejo.
Ele dizendo e eu me perguntando: Quando foi que eu parei?
De novo, um. Dentro de mim como, nas fugas, nem eu mesma tenho podido estar. Vou até um tempo em que hoje eram sonhos. Já fui melhor de sonhos. Hoje, é acordada que sinto boas referências, nesse estar com sem gênero, que faz de ser humana até algo interessante.
Ele dizendo e eu me perguntando: Quando foi que eu parei?
De novo, um. Dentro de mim como, nas fugas, nem eu mesma tenho podido estar. Vou até um tempo em que hoje eram sonhos. Já fui melhor de sonhos. Hoje, é acordada que sinto boas referências, nesse estar com sem gênero, que faz de ser humana até algo interessante.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
A minha flor me ensinou onde está o dó, para eu poder achar as outras notas. Tenho dó de não ser o inverso, mas acho bonito ser assim do avesso. Inda mais que nem sempre tudo pode ser direito e, mesmo quando pode, nem sempre é bom.
Bom mesmo é ter uma flor e sentir que meu coração tão cansado e decepcionado ainda pode florescer em carinho.
Bom mesmo é ter uma flor e sentir que meu coração tão cansado e decepcionado ainda pode florescer em carinho.
É injusto.
Nenhuma das partes merece.
Nem a de lá, o peso do que desperta sem querer, sem saber. Nem a de cá, o que poderia ter, se conseguisse aliviar o peso de querer o que acha saber.
Se ao menos tivesse conseguido manter firme a decisão. Mas o bicho de si falou mais forte, subverteu a ordem e foram-se as rédeas. Agora, é achar um jeito de amansar.
Recolher?
Na pá, com a vassoura, os cacos.
Que findam o ano não servindo nem pra mosaico.
Nenhuma das partes merece.
Nem a de lá, o peso do que desperta sem querer, sem saber. Nem a de cá, o que poderia ter, se conseguisse aliviar o peso de querer o que acha saber.
Se ao menos tivesse conseguido manter firme a decisão. Mas o bicho de si falou mais forte, subverteu a ordem e foram-se as rédeas. Agora, é achar um jeito de amansar.
Recolher?
Na pá, com a vassoura, os cacos.
Que findam o ano não servindo nem pra mosaico.
domingo, 16 de novembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Incrível como enfiaram no juízo da gente isso de tentar achar justificativas. Sobrou até pro pobre do abacaxi do dia 1 de janeiro, que estava dulcíssimo, até onde lembro. E mesmo que fosse azedo. Nesse mesmo dia, já em casa, comi limão com sal, ambos tão inocentes quanto.
O ponto nodal é um só. Na verdade, vários uns.
Uns tantos,
sensíveis percebedores,
vorazes pensadores,
ousados infantes.
Nem sempre por opção, nem sempre da melhor forma possível, nem sempre como merecido.
Apenas uns.
Em homenagem, Caetano do bom (porque o da Caras, ninguém merece):
Uns vão
Uns tão
Uns são
Uns dão
Uns não
Uns hão de
Uns pés
Uns mãos
Uns cabeça
Uns só coração
Uns amam
Uns andam
Uns avançam
Uns também
Uns cem
Uns sem
Uns vêm
Uns têm
Uns nada têm
Uns mal
Uns bem
Uns nada além
Nunca estão todos
Uns bichos
Uns deuses
Uns azuis
Uns quase iguais
Uns menos
Uns mais
Uns médios
Uns por demais
Uns masculinos
Uns femininos
Uns assim
Uns meus
Uns teus
Uns ateus
Uns filhos de Deus
Uns dizem fim
Uns dizem sim
E não há outros
(Uns)
O ponto nodal é um só. Na verdade, vários uns.
Uns tantos,
sensíveis percebedores,
vorazes pensadores,
ousados infantes.
Nem sempre por opção, nem sempre da melhor forma possível, nem sempre como merecido.
Apenas uns.
Em homenagem, Caetano do bom (porque o da Caras, ninguém merece):
Uns vão
Uns tão
Uns são
Uns dão
Uns não
Uns hão de
Uns pés
Uns mãos
Uns cabeça
Uns só coração
Uns amam
Uns andam
Uns avançam
Uns também
Uns cem
Uns sem
Uns vêm
Uns têm
Uns nada têm
Uns mal
Uns bem
Uns nada além
Nunca estão todos
Uns bichos
Uns deuses
Uns azuis
Uns quase iguais
Uns menos
Uns mais
Uns médios
Uns por demais
Uns masculinos
Uns femininos
Uns assim
Uns meus
Uns teus
Uns ateus
Uns filhos de Deus
Uns dizem fim
Uns dizem sim
E não há outros
(Uns)
Falando em digerir, eu ainda sei cozinhar.
E posso de novo ficar só no meu lugar. Descabelada, semi-vestida, cantando como se soubesse. Se vierem baratas, mato todas, com um misto de pena e fúria. Não pretendo fumar. Mas uns desenhos com certeza rolarão.
E muita música, pra temperar.
[at this moment, Pixies: theres is a wait so long (so long, so long)]
E posso de novo ficar só no meu lugar. Descabelada, semi-vestida, cantando como se soubesse. Se vierem baratas, mato todas, com um misto de pena e fúria. Não pretendo fumar. Mas uns desenhos com certeza rolarão.
E muita música, pra temperar.
[at this moment, Pixies: theres is a wait so long (so long, so long)]
sábado, 8 de novembro de 2008
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Tantas vezes me perguntei como podia ficar tão acordada, mesmo com tanto cansaço, com tanto sono, com tantos sonhos por vir. Longas noites de um esforço tolo, vão. Manhãs seguintes de olheiras e bocejos, dores musculares, respirações tensas. Nas tardes, remanchentas de calor ou frio, a tentativa de compensar. Frustrada. Aí, diante de uma certa noite, fez sentido.
______________________________________
A NOITE/1
Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.
(Eduardo Galeano)
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A NOITE/1
Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.
(Eduardo Galeano)
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Numa noite de quarto crescente, sexta-feira, num ônibus de periferia, uma estranha faz uma gentileza: um pacote de jujubas e um sorriso, trocados depois de umas poucas palavras. Sei mais ou menos pra onde ela foi, ela sabe mais ou menos onde fiquei. Quê mais? Mais nada. Ou tanto, que num sei dizer. Apenas sinto.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
... quem inventou fui eu fiz de você o sol da noite primordial ... um só sempre é demais pra seres como nós sujeitos a jogar as fichas todas de uma vez ... não quero ter que optar quero poder partir quero poder ficar ...
[Antônio Cícero]
Acostumei tanto ao sumir-se que na última me descobri gostando disso. Ainda mais se ao aparecer vem revirar o que tomava assento. Sinto muito - tanto! - mas, que fazer? Aqui, lá, em qualquer lugar: a questão é o que vai dentro... Se pudesse, faria muito diferente, pois desagrada o fatalismo de pensar (farejando) que vai retornar tantas vezes quantas jamais saberemos. Jamais saberemos. Outros muito mais sabidos não sabem. E ainda há estes, os outros... Teimosos inocentes, insistindo em chegar e estar, não notando (ou por notar?) o olho do furacão. Que fazer? Cansada, me abandono, azul, à maré.
[Antônio Cícero]
Acostumei tanto ao sumir-se que na última me descobri gostando disso. Ainda mais se ao aparecer vem revirar o que tomava assento. Sinto muito - tanto! - mas, que fazer? Aqui, lá, em qualquer lugar: a questão é o que vai dentro... Se pudesse, faria muito diferente, pois desagrada o fatalismo de pensar (farejando) que vai retornar tantas vezes quantas jamais saberemos. Jamais saberemos. Outros muito mais sabidos não sabem. E ainda há estes, os outros... Teimosos inocentes, insistindo em chegar e estar, não notando (ou por notar?) o olho do furacão. Que fazer? Cansada, me abandono, azul, à maré.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Há quem diga que envelhecer é como voltar a ser criança. Aí eu tenho de me render ao riso moleque que acompanha a resposta rápida do homem velho à minha frente, cabeça baixa, olhar cansado, cabelos grisalhos, garfo na mão:
- Painho, as formigas vão dominar o mundo!
Pêi-buf:
- É dessa feita que o mundo melhora!
Duas horas das nossas vidas, ele todo enrolado para falar o que pensa, rindo amarelo por vezes, sem querer concordar, querendo concordância e eu vendo nos olhos dela a angústia tão difícil de carregar. Poderia pôr ambos no colo, acalantar os medos e sossegar as ansiedades. Mas não é preciso. Os olhos ainda brilham ao falar em sonhos e projetos. Pessimista na percepção, otimista na ação. Sigamos. "É preciso estar atento e forte". Sigamos.
- Painho, as formigas vão dominar o mundo!
Pêi-buf:
- É dessa feita que o mundo melhora!
Duas horas das nossas vidas, ele todo enrolado para falar o que pensa, rindo amarelo por vezes, sem querer concordar, querendo concordância e eu vendo nos olhos dela a angústia tão difícil de carregar. Poderia pôr ambos no colo, acalantar os medos e sossegar as ansiedades. Mas não é preciso. Os olhos ainda brilham ao falar em sonhos e projetos. Pessimista na percepção, otimista na ação. Sigamos. "É preciso estar atento e forte". Sigamos.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Cacheou a foto, deu voltas a vida, deu voltas no mundo.
deu a cara a tapa, mostra sutil o rosto, sente novos gostos.
Sorriu o prazer da entrega, ao risco não se nega,
se pega suave
carregando possibilidades
leves que nem bola de sabão.
Enternecida, te estendo a mão, seguro com força,
seguindo junto toda a beleza
desse seu novo estar no mundo...
deu a cara a tapa, mostra sutil o rosto, sente novos gostos.
Sorriu o prazer da entrega, ao risco não se nega,
se pega suave
carregando possibilidades
leves que nem bola de sabão.
Enternecida, te estendo a mão, seguro com força,
seguindo junto toda a beleza
desse seu novo estar no mundo...
domingo, 5 de outubro de 2008
palavras precisas,
preciosos sons e silêncios,
amores intensos.
alguns rabiscos, café, frutas (limão!), gengibre, mel.
o quê mais? hum, vejamos... ah, sim!
cheiro de chuva, tons de azul e fogo.
para transformar.
[impossível por fora, chovendo por dentro|come on, baby, light my fire|perto do fogo, como na idade média|help me if you can|e dizer assim, o amor é azulzinho]
preciosos sons e silêncios,
amores intensos.
alguns rabiscos, café, frutas (limão!), gengibre, mel.
o quê mais? hum, vejamos... ah, sim!
cheiro de chuva, tons de azul e fogo.
para transformar.
[impossível por fora, chovendo por dentro|come on, baby, light my fire|perto do fogo, como na idade média|help me if you can|e dizer assim, o amor é azulzinho]
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
as asas de um pássaro quando começa a alçar vôo. a barra da saia esvoaçante de uma mulher. a contração de susto de um polvo. a flecha firme na mão de um arqueiro.
vi todas essas coisas e um pouco mais nas mãos de um maestro, ontem. fiquei pensando o quão precioso é reger uma orquestra, pois se rege não apenas os músicos, mas também os sentimentos todos que a música é capaz de despertar nas pessoas. por aquelas duas horas, aquele homem teve a minha vida nas mãos. a cada movimento, uma orientação, um pedido, uma indicação, um afeto, uma emoção, que me faziam sentir viva de um modo muito intenso, bonito, vibrante.
sentada ali, entregue àqueles sons sublimes, tive paz, saudades, encanto, disposição, desejo, sonho. fui, definitivamente, feliz como há muito não me sentia.
vi todas essas coisas e um pouco mais nas mãos de um maestro, ontem. fiquei pensando o quão precioso é reger uma orquestra, pois se rege não apenas os músicos, mas também os sentimentos todos que a música é capaz de despertar nas pessoas. por aquelas duas horas, aquele homem teve a minha vida nas mãos. a cada movimento, uma orientação, um pedido, uma indicação, um afeto, uma emoção, que me faziam sentir viva de um modo muito intenso, bonito, vibrante.
sentada ali, entregue àqueles sons sublimes, tive paz, saudades, encanto, disposição, desejo, sonho. fui, definitivamente, feliz como há muito não me sentia.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Dentro em mim, desencanto a cada ponto
que subtraio a meu favor.
Nos olhos dela, um canto deusa,
suaves ondas de ser do mar
De amor demais, me afogo em lágrimas.
De saudade nutro os dias.
De asas leves, invejo a borboleta
que pode voar até lá
De passos firmes ela dança:
cores, dores, ventos,
afetos intensos,
noites a vagar
Do seco cerrado, trago o solitário movimento
que não se nega ao encontro denso
com a energia de lua
no sorriso dela
Bela, ela respeita meu silêncio
e fundo, lá dentro, me traz uma paz de água:
honesto e fluente aconchego
Encantada, cedo mansa a esse doce apego
surpresa que veio porque merecemos
a delícia de assim estar
Grata, bordo com fios de afeto
o tecido de uma amizade,
que flora por si
no jardim da possibilidade
de ser gente,
ser mulher,
ser feliz.
que subtraio a meu favor.
Nos olhos dela, um canto deusa,
suaves ondas de ser do mar
De amor demais, me afogo em lágrimas.
De saudade nutro os dias.
De asas leves, invejo a borboleta
que pode voar até lá
De passos firmes ela dança:
cores, dores, ventos,
afetos intensos,
noites a vagar
Do seco cerrado, trago o solitário movimento
que não se nega ao encontro denso
com a energia de lua
no sorriso dela
Bela, ela respeita meu silêncio
e fundo, lá dentro, me traz uma paz de água:
honesto e fluente aconchego
Encantada, cedo mansa a esse doce apego
surpresa que veio porque merecemos
a delícia de assim estar
Grata, bordo com fios de afeto
o tecido de uma amizade,
que flora por si
no jardim da possibilidade
de ser gente,
ser mulher,
ser feliz.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
terça-feira, 16 de setembro de 2008
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
rodar até entorpecer, meio dervixe, mas recusando a covardia de simplesmente se aproveitar, ao estilo do concomitantimismo pragmático. gosto de fazer acontecer aquilo que eu possa, afinal, são muitos os descontroles nesses giros. gosto sim de sentir as rédeas da situação, tanto quanto gosto de me ver de joelhos diante do não saber.
o dedo mindinho e o maior de todos estão me pondo à prova: não querem segurar com firmeza meu mais novo instrumento de felicidade. fodam-se, os dois. vão ter de se curvar à minha vontade e à minha obstinação. pois é, posso desistir fácil. só se não houver amor e, como cada dia mais amo a música com uma força descomunal, submeterei todos os meus dedos a uma luta louca contra nossos hábitos frágeis. não sei quanto nos bateremos nisso, acho que muito e isto muito me atrai.
esse é meu novo giro, minha nova meta, meu novo vício. assim saio de mim ao meu encontro. e gosto do que vejo, torno-me minha amiga.
o dedo mindinho e o maior de todos estão me pondo à prova: não querem segurar com firmeza meu mais novo instrumento de felicidade. fodam-se, os dois. vão ter de se curvar à minha vontade e à minha obstinação. pois é, posso desistir fácil. só se não houver amor e, como cada dia mais amo a música com uma força descomunal, submeterei todos os meus dedos a uma luta louca contra nossos hábitos frágeis. não sei quanto nos bateremos nisso, acho que muito e isto muito me atrai.
esse é meu novo giro, minha nova meta, meu novo vício. assim saio de mim ao meu encontro. e gosto do que vejo, torno-me minha amiga.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
floraram os primeiros ipês brancos em Brasília. sinal de setembro já mesmo começado. quais são os ares que veêm? desvio meus olhares ariscos dos olhos de farol que me acuam. quero poder fechar as portas, bater um bolo, lavar os trapos e dormir um sono manso.
quero a leveza de uma flor branca de um ipê em setembro...
quero a leveza de uma flor branca de um ipê em setembro...
domingo, 7 de setembro de 2008
já não me angustia uma barata passar no pé. matei duas esses dias, tão friamente quanto ignorei a que me submeteu a isso antes das 6h da manhã. chocolate já não tem tanto sabor como antes. tudo parece fazer muito tempo, inclusive aquele meu jeito de ficar entregue continuamente a uma mesma coisa, com a mesma delicadeza com que poderia ficar calada sem marejar, quando meus limites estavam para lá de ultrapassados.
não quero relembrar como fazer isso. prefiro os saberes de agora. e vou atrás de um jeito de ficar de boa de verdade. só não sei de boa com o quê... isso eu descubro depois.
não quero relembrar como fazer isso. prefiro os saberes de agora. e vou atrás de um jeito de ficar de boa de verdade. só não sei de boa com o quê... isso eu descubro depois.
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